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Para quem militamos?

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Creio que esgotei toda minha “racionalização” em relação ao que poderia levar certos ativismos a adotar certas posturas discriminatórias acriticamente ou mesmo deliberadamente, em relação a outros grupos marginalizados.

A meu ver, há um problema muito grande na forma como os ativismos estão sendo encarados.

Existe um termo em inglês chamado accountability que literalmente quer dizer responsabilidade.  No sentido, digamos, ativista que usamos, significa ser responsável pelo o que se diz e pelo que se faz sem encarar isso como uma espécie de “ameaça”.

Ser responsável significa, sobretudo, perceber e entender que nenhum discurso é livre de discriminação. Seja porque estamos todxs imersxs em uma cultura altamente discriminatória que frequentemente solapa nossos esforços pelo bem, seja porque não temos controle sobre a interpretação de outrem.

Ninguém é perfeito, obviamente sabemos disso. Iremos falhar, e eu digo isso com 100% de certeza. Acredito que o real problema não são as falhas, mas a falta da accountability que coloquei acima; A falta de ser responsável pelo o que se diz e pelos efeitos do que se diz.

Dessa forma, acho bastante inconcebível – pelo menos para mim – existirem certos grupos que promovem discursos nocivos e, quando chamados à atenção, utilizam profundo negacionismo em relação a seus atos, inclusive culpabilizando aquelxs que lhe apontaram a falha.

Ativismos são formas de resistência à norma e uma forma de tentarmos melhorar a situação não só de nós como sujeitos marginalizados, mas de outras pessoas cujas vivências nem sempre cruzam com as nossas. É a maravilhosa interseção dessas experiências – e nosso cuidado e atenção com as mesmas – que caracteriza nossa empatia para com outrxs.

Dito isso, verifico que o problema reside também no sistema de representação político existente; Nomeia-se uma espécie de corpora metafísico, um sujeito jurídico para utilizar o termo de Butler, na tentativa de representar toda uma categoria de pessoas que partilham, supostamente, de uma mesma identidade.  De fato, não estou a dizer que esse sistema é por completo um fracasso, mas devemos verificar que existem várias falhas, uma vez que sabemos que a identidade é algo tão complexo e tão múltiplo que é impossível juntar tudo sob uma categoria e esperar que todxs sejam plenamente representadxs.

Justamente por isso, há momentos em que existem conflitos. E conflitos, ao contrário do que possa parecer, são extremamente bem-vindos. São os conflitos que irão nortear o ativismo em direção a uma inclusividade cada vez maior. São os conflitos que demonstram nossas falhas – e então consequentemente podemos nos melhorar. Sim, se não há alguém para apontar-me o erro, como saberei que estou errando?

Como avaliar de que modo o meu discurso afeta outrem, se eu não faço parte de certos grupos, não vivencio certos preconceitos? Embora creio que mesmo se fizesse parte de tais grupos, uma pessoa não poderia falar em totalidade sobre a experiência de outras; Cada pessoa vivencia o preconceito de formas distintas, e inclusive também são afetadas por ele de formas distintas.

Os conflitos são a peça-chave para melhorar nossos ativismos. Serão nas horas nas quais nossos discursos estão postos à prova que veremos a extensão daquilo que se fala, daquilo que se afirma, daquilo pelo qual se milita com tanta veemência.

Por isso, é justamente nesse momento, no momento em que nossas convicções estão em cheque, que devemos ter a maior cautela e sermos responsáveis pelas nossas ações e discursos. É nessa hora que devemos aprender a ouvir mais e falar menos. Afinal, qual é o prejuízo de ouvir pessoas de um grupo marginalizado que reivindica algo – seja linguagem inclusiva ou mesmo a simples inclusão de suas identidades nas pautas ativistas – senão a dura queda do pedestal e a ferida no ego? Pergunto-me: Para quem militamos? Para nós mesmxs ou para todxs? O que queremos com ativismo? Reconhecimento em forma de elogios, ou queremos crescer e nos melhorar para que nossos discursos incluam todxs e, por conseguinte, sejam menos nocivos?

Decerto, reconhecimento é algo prazeroso – passamos a vida inteira sendo excluídxs das esferas sociais de reconhecimento – não há nada de errado em nos sentirmos bem com elogios e nem em nos sentirmos empoderadxs com tais coisas, mas devemos perceber quando ultrapassamos certas fronteiras e negamos esse mesmo reconhecimento ao outro, ao discurso do outro, especialmente quando esse outro está justamente reivindicando reconhecimento através desses conflitos mencionados.

Autocrítica é algo que nos é essencial.

Um ativismo que não ouve e não é autocrítico com suas premissas, é um ativismo estéril que, enquanto alega representar todxs, não representa ninguém exceto a si mesmo.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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