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Alguns pensamentos aleatórios – Breves críticas ao Feminismo Mainstream e à situação de pessoas trans* na academia.

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[EDIT 06/04/2013 15:30 – Uma amiga feminista intersecional me chamou a atenção para o termo “capaz”, como sendo um termo ruim para designar pessoas sem deficiências, pois sugere que as pessoas com deficiências são, por analogia, incapazes em sua totalidade. Dessa forma, peço desculpas pelo erro e faço essa retificação].

[Edit 08/04/2013 19:45: Adição de Aviso: Esse texto diz respeito às minhas relações com o Feminismo que chamo de Mainstream e Feminismo Cisgênero. Contudo, minha posição como mulher trans* percebida como branca, sem-deficiência e de classe média permite apenas que eu veja até um certo ponto questões relacionadas com outras opressões que não são a minha. Peço desculpas de antemão caso tenham acontecido exclusões inconscientes e por favor chamem minha atenção em relação à linguagem problemática].

Às vezes, quando deito na cama e tento dormir, tenho muita insônia. Na verdade, isso acontece com uma certa frequência. Pensamentos de textos que eu li e outros ainda a serem lidos percorrem minha cabeça, assim como determinadas discussões. Nesses momentos creio que o melhor a ser feito é levantar e escrever.

Um dos elementos que parece diferenciar nosso ativismo dos norte-americanos e europeus é nossa capacidade para sermos hipócritas. Como fingimos incluir enquanto, na verdade, excluímos.

Isso acontece em todos os espaços de ativismos sejam do que/para que for. Contudo, minha experiência mais significativa decerto se dá com o feminismo.

O feminismo será intersecional ou não será. Isso sempre esteve bem claro para mim – e, felizmente, para muitas feministas intersecionais. Enquanto o Transfeminismo recebeu e recebe profunda resistência expressa em exclusões estratégicas ou mesmo direta transfobia (devidamente negada), o mesmo parece ocorrer com o “nascimento” do feminismo intersecional no Brasil. Parece-me que o Feminismo Mainstream tem horror a críticas. Prefere manter-se em um mesmismo excludente e fazer o que eu chamo pejorativamente de “feminismo de repeteco”: aquele que compartilha as imagens bonitinhas de ativismo, mas que nas horas cruciais mantêm a mesma postura dxs opressores que alega lutar contra. Isso nunca deixará de ser a trágica prova da intersecionalidade das opressões, como um grupo oprimido oprime outros utilizando os mesmos argumentos de seus opressores e assim por diante.

Suspeitem de qualquer feminismo que negue a existência de cissexismo/transfobia. Aliás, suspeitem de qualquer feminismo que retire a autonomia das pessoas marginalizadas e negue a opressão dx marginalizadx. Suspeitem de qualquer feminismo que queira definir narrativas legítimas para ser mulher (ou homem), sejam elas quais forem. Suspeitem de qualquer feminismo que deliberadamente determine se irá lutar contra racismo, homofobia, transfobia, capacitismo, classismo. Porque é a prova cabal de que esse tipo de feminismo exclui mulheres negras, trans*, lésbicas, deficientes, pobres etc. E o que sobra? Mulheres brancas cis heterossexuais classe média, não-deficientes.

É nesse sentido que eu disse e digo muitas vezes que desse naipe de feminismo quero distância. É o feminismo seletivo que alega lutar por todxs, mas não luta por ninguém exceto a si próprio. A universalização da categoria de mulher é uma violência identitária. O Feminismo Cis quer usurpar a categoria de mulher para si e excluir as mulheres trans*, assim como fazem xs médicxs e juizxs que decidem nossas identidades por nós.

Tenho visto homens se dizerem aliados das mulheres, para ignorarem completamente o que as mesmas dizem. O discurso do texto escrito e das imagens compartilhadas é, assim, hipócrita. Não se faz o que se diz.

Tenho visto pessoas cis querendo separar as questões trans* do feminismo conscientemente ou inconscientemente com um discurso absurdo de que quando se fala em “mulheres” já está implícito (o leitor fará a associação). Seria risível se não fosse ultrajante. Vocês não entenderam pessoas cis, isso é inseparável. Eu não sou um dia mulher e outro trans*. Eu sou uma mulher trans*. E a forma como o sexismo me afeta está associada diretamente com cissexismo/transfobia. Isso é intersecionalidade 101. É isso que as colegas feministas negras do passado tentaram mostrar (e até hoje tentam) para o Feminismo Branco: Não se é um dia negrx e outro mulher. É inseparável. Não se sofre racismo um dia e machismo no outro. As questões estão intersecionadas.

Enquanto o Feminismo de Mainstream não entender esse conceito básico, continuará branco, cisgênero, heterossexual, capaz, medioclassista. E enquanto continuar com negacionismo e utilizar transfobia (ou outras formas de discriminação) para responder a essas críticas, continuará a ser um naipe de feminismo com o qual não quero me associar.

Alguns dizem com má-fé “o que as pessoas trans* fazem pelo feminismo?”; decerto, não muito, uma vez que nem consideradxs sujeitxs do feminismo somos, e passamos mais tempo tendo que ‘provar’ que somos quem dizemos que somos para sociedade e para o feminismo do que de fato fazendo parte de suas pautas. Creio que quem utiliza esse tipo de argumento só pode pensar em um ativismo utilitarista, onde pessoas trans* são (ou deveriam ser) ‘peões’ do feminismo, que temos que segui-lo acriticamente, ou mesmo que somos obrigadxs a segui-lo mesmo quando ele não nos inclui. Esse discurso é cissexista, a meu ver, e não prevê a autonomia de pessoas trans*, prevê sua subordinação.

A questão dxs “missionárixs cisgêneros” que alegam falar por nós é a uma das mais caras ao Transfeminismo. Não ocupamos espaços de poder nenhum. E quando falo espaços de poder não me refiro ao Congresso ou quaisquer cargos políticos, mas às posições de poder socialmente estabelecidas: professorxs, médicxs, juizxs, policiais, acadêmicxs.

Especialmente na academia, onde posso falar melhor, o absurdo de colonização que nossas identidades sofrem é imensurável. Teóricxs cis falando do que não sabem, especialmente xs da área Queer que aparentemente no Brasil tomou um rumo “não existem raças somos todos humanos” para fazer negacionismo de opressões. Parecem que dormiram na aula do Foucault ou da Haraway, não obstante se dizerem doutores de tais teóricxs. Essa semana ouvi uma teórica cis dizer que “Travestis são homens e mulheres”.  Assim, essa prática de escrever e militar por algo e fazer exatamente o contrário (e negar que fez) parece instalada confortavelmente nos espaços ativistas. O que importa é, na verdade, a imagem.

Me pergunto porque essa gente não vai pesquisar outras coisas – e aí entramos na questão utilitarista: pessoas trans* são úteis como campo de pesquisa. Geram dissertações e teses que garantem a ascensão acadêmica desejada. Enquanto isso, continuamos subalternxs. O que essxs teóricxs estão fazendo por nós? Nada. Só falando bobagens sobre o que não sabem, sobre uma identidade que não é a delxs.

Cissexismo é uma estrutura de exclusão. Não são só atitudes isoladas de violência físico-verbal. É uma estrutura que nos mantêm à margem em todos os aspectos sociais.  É uma estrutura que desumaniza nossas identidades, que usurpa os conceitos de mulher e homem e, quando reivindicamos tais conceitos, nos acusam de reforçar o sistema binário de gênero.

Estamos cansadxs de dar murros em pontas de facas. Por isso, para mim ou o feminismo é intersecional ou não é. Já bem disse um coletivo feminista português: “O feminismo será transfeminista ou não será”. Sim, porque de outra forma só nos resta a exclusão. Não se enganem, não são as pessoas trans* que são “separatistas” do feminismo, é o feminismo que falhou e falha em nos incluir ao mesmo tempo em que alega nos representar.

Por fim, não pensem que o Trasfeminismo é o Santo Graal do ativismo porque não é. Existem falhas, e muitas, especialmente no que concerne intersecionalidade. Me envergonho por isso e espero ter a força para trazer o que eu abracei como meu ideal para o maior grau de intersecionalidade possível, pois sem isso não somos nada – apenas mais do mesmo.


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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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