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A genitalização das pessoas e dos relacionamentos

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[Aviso de conteúdo: Esse texto usa certos termos para identificar genitais de pessoas trans*; faço uma ressalva que nem todas as pessoas trans* se sentem confortáveis com tais nomenclaturas, havendo aquelas que se sentem empoderadas e aquelas que sentem disforia. Esse texto parte da visão de uma mulher trans* queer que se sente empoderada em identificar o próprio genital com certos termos].

Muitas pessoas me perguntam no ASK se elas têm preconceito porque não se relacionariam com mulheres ou homens trans*, sempre fazendo alusão ao genital. Muitas acham que defender a não-genitalização dos relacionamentos é fazer condicionamento de sexualidades. Nada poderia estar mais longe do que isso. O único condicionamento que consigo perceber nisso é a ideia de que o genital é uma categoria fundante das relações interpessoais. Que se um genital não condiz com as minhas expectativas de gênero da pessoa com a qual eu quero me relacionar, isso é um motivo legítimo para eu ignorar todos os meus sentimentos afetivos (e sexuais) pela pessoa e não me relacionar com ela. Vou dar alguns exemplos:

1. Expectativas físicas gerais ocorrem em vários casos com pessoas que não são trans* e isso é considerado preconceito (ou deveria…)

Imagine que você na internet, conhece aquela pessoa maravilhosa e conversa horas, dias, semanas com ela, super se interessa, seus gostos tem tudo a ver, afinidade ideológica etc. De repente, quando você a encontra pessoalmente você verifica que:

a) ela é gorda; b) com alguma deficiência; c) negra

Então você escolhe não se relacionar com ela. Isso seria gordofobia? Capacitismo? Racismo? Se o motivo pelo qual você escolhe não se relacionar com uma pessoa é um atributo físico (nesse caso não esperado), prezada pessoa, você tem preconceitos que precisam ser trabalhados.

2. Expectativas físicas específicas com genitais ocorrem em vários casos com pessoas que não são trans* e isso é considerado preconceito (ou deveria…)

Agora, imagine a seguinte situação: Você mulher heterossexual, conhece aquele homem cis super legal que te atrai (feminista :P), tem boa conversa, afinidades etc. Conversam por dias, semanas. Posteriormente você fica ciente do seguinte:

a) ele tem um micropênis e/ou; b) ele é impotente ou; c) tem o genital mutilado/perdido por algum fator (existem vários casos do tipo).

Você deixaria de se relacionar com uma pessoa assim? Voltaria atrás nos seus sentimentos, em toda construção romântica que você criou durante o tempo que vocês estavam juntxs, por causa do genital desse homem? Da mesma forma, um homem hétero deixaria de relacionar com uma mulher cis que tivesse perdido os seios, por exemplo?

3. Mas e o prazer?

Eu sempre digo que sexo é infinitamente muito mais do que só penetração. O que as pessoas chamam de “preliminares” eu considero sexo; até porque, vamos combinar, quem é que nunca achou uma gozada por sexo oral ou masturbação muito melhor do que sexo penetrativo? Eu particularmente acho :D

Há muito mais além do arco-íris gente, existem inúmeras formas de dar e receber prazer que não precisam envolver penetração. Acontece que estamos tão centradxs no sexo dos filmes pornôs que queremos mimetizar aquilo como se fosse a melhor coisa do mundo (dica: não é. Por exemplo, puxar cabelos e usar seios como se fossem botões de máquinas de lavar – isso não é um padrão amigxs, tem gente que gosta; tem gente que odeia). Ainda, se o sexo penetrativo for tão importante, tem zilhões de dildos, pênis de borrachas, próteses, e afins que servem pra isso. O que acontece é que colocamos uma importância tão grande nos genitais “originais” que esquecemos que o “objetivo”, digamos, do sexo é dar prazer, te fazer sentir bem (e ser consensual não vamos esquecer).

4. Homossexualidade não requer simetria genital.

E nem heterossexualidade requer assimetria genital. Se eu sou uma mulher trans* que não fiz cirurgia genital e possuo um pênis, e me envolvo com uma mulher cis, é obvio que nossos genitais não serão simétricos, mas isso não deixa de ser uma relacionamento lésbico. O mesmo acontece com um homem hétero cis que se relacione com uma mulher trans* com pênis. Genitais simétricos, mas heterossexualidade. Ainda, poderia haver simetria genital com homossexualidade no caso de duas mulheres trans* lésbicas ou dois homens trans* gays.

Quando retiramos dos genitais essa importância que damos fundante das nossas relações, e retiramos essa “verdade” última das identidades (sou gay então gosto de pênis; sou lésbica então gosto de vulvas etc.) e desconstruímos essas ideias limitadas que relacionam genital-gênero-sexualidade-relações, percebemos que existe um número infinito de configurações aí fora. Só precisamos abrir a mente nos deixarmos levar sem preconceitos.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Eu compartilho totalmente das ideias sobre as genitalidades dos relacionamentos. Porém eu tenho uma ressalva. Por que continuar usar termos como homossexualidade e heterossexualidade já que ambos estão assentados justamente naquilo que a autora desconstruiu. Isso essas nomenclaturas me parece que dão maior confusão e nebulosidade, já que homo/hetero em seguida sexualidade apontam querendo ou não para uma relação atribuída a pessoas com esses designados sexos. Acho que ou se busca um outro conceito para esses novos arranjos ou simplesmente abandona-os.

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  2. Hmmm concordo e discordo, eu não acho que a genitália deva ser um impecílio para duas pessoas que se amam e queiram ficar juntas.

    Mas, por outro lado, eu não acho que se uma pessoa se recusar a se relacionar com outra por causa da genitália seja preconceito.

    Eu acho que as pessoas devem se sentir confortáveis em suas relações. Tem gente que se importa com a aparência física do outro/a, outro/as preferem aspectos ‘‘ideológicos’’, até mesmo gosto musical. Se você se sentir confortável com um/a parceiro/a branca, negra, que goste de Beethoven, que goste de funk, que seja cis, trans*, indie, headbanger etc etc etc, fique com essa pessoa, se não, não.

    Não é uma questão (nem sempre) de preconceito, muitas vezes só gosto.

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  3. eusoucarllitos

    Reblogged this on Aline Souza.

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  4. Perfeito. Gostei muito. Parabéns pela clareza.

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  5. Pingback: Porque o transfeminismo deve englobar todas as outras lutas e todas as outras lutas devem englobar o transfeminismo | Gênero à Deriva

  6. todo gosto traz embutido um sistema de construções sociais; é praticamente impossível traçar uma linha demarcatória. acho que a gente super se beneficia desses exercícios de desconstrução e tem que manter, sim a mente aberta. muito legal seu texto. abs!

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  7. Ótimo texto, muito esclarecedor e eu estava, justamente, com dúvidas a respeito disso. Esse texto abriu uma nova perspectiva para mim. Parabéns pelas palavras iluminadas!

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  8. Pingback: Sobre ser mulher trans* e bissexual – uma experiência pessoal | Transfeminismo

  9. Tentei ler o texto, apesar no trigger warning. E claro que não foi muito confortável para mim, mas sabia que era necessário para ver o que seria falado. Eu tenho muitas ressalvas quanto ao texto pois desconsidera as pessoas que tem realmente um problema com a genitália X e as taxa de preconceituosas. Isso é de um maneirismo ideológico que desprivelegia gostos, opiniões e características individuais, desconsidera as trajétorias de cada indivíduo que o consideram como autônomo e consciente de suas decisões. Problemático.

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  10. Pingback: Racismo, transfobia e gordofobia – o amor além da fantasia: Padrões estéticos em relações amorosas | Nada sob Controle

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