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Leis não adiantam coisa alguma se nós não pararmos de usar preconceito conosco e com outros grupos

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Não chame a coleguinha de puta. Essa frase parece besta, mas a verdade é que com as declarações da Mara, choveu slut-shaming criticando a postura dela por ter posado nua e etc. Exatamente como ocorreu com Miriam Rios. Não chame a coleguinha de puta; Não chame a coleguinha de sapatão pejorativamente – “Dilma é sapatão”; Não desvalide o gênero de uma pessoa com base em atributos biológicos que teoricamente nos unem – “Até parece que Dilma não é mulher”, diziam no Ato Contra o Estatuto do Nascituro.

Não adianta pregar anti-homofobia com uma mão e destilar misoginia com a outra. Certas militâncias gays esquecem-se que ao chamar Mara de “vadia”, “puta” e afins, não a está atingindo e sim as mulheres que cotidianamente reivindicam justiça contra atos misóginos de violência – entre eles estupro, por exemplo. De que adianta a Lei Maria da Penha se nós, ativistas, estamos chamando a coleguinha de vadia para atacá-la. O mesmo “vadia” silencioso que se ouvirá dos juízes, dos advogados e da sociedade quando julgarem casos de estupro e de violência doméstica. “Bati nela porque era uma vadia e saía com todos, excelência, afinal sou homem” – Imaginem esse cenário, nem um pouco fantasioso.

Não chamem o Feliciano de viado, não o ridicularizem por fazer a sobrancelha ou alisar o cabelo. É um cuspe para cima. De que adianta o PLC 122 (caso seja aprovado) se estamos tentando atingir um fundamentalista evangélico homofóbico com…Homofobia. Seu colega gay morreu porque desmunhecava. Bateram no seu amigo gay porque ele era BICHA, VIADO. Pois socialmente homens que fazem coisas consideradas femininas são piores, porque ser mulher nessa sociedade é algo ruim, pior. Homofobia e misoginia/femmefobia andam de mãos dadas. A misoginia instalada no meio gay que venera agora o gay macho alfa e repudia as bichonas, os viadinhos, quem desmunheca, fala fino, só serve para higienizar a sociedade das expressões femininas e contribui diretamente para a manutenção do machismo. Não queremos reforçar o binário masculino-feminino, queremos embaralhá-los ainda mais. Porque tal binário é uma violência que nos coage a viver de forma X ou Y sob a pena da violência física ou até mesmo a morte.

O mesmo vale para as insinuações pejorativas que Dilma é sapatão. Primeiro: ser sapatão não tem nada de ruim, pelo contrário – por que então querem atingi-la chamando assim? Por que uma mulher que ascende para uma posição de poder e tem decisões firmes (que podem ser criticadas obviamente), é considerada “sapatão”? É o mesmo machismo binário operando aqui: Mulher forte só pode “ser” homem e então se ela “é” homem pela lógica heteronormativa ela gosta de mulher. Logo ela é sapatão. Esse tipo de ideia irá refletir diretamente nas idéias do que as pessoas trans* são “verdadeiramente”: Sapatões e bichonas. Já vemos nos xingamentos homofóbicos, as premissas cissexistas que classificam pessoas trans* como não-homens e não-mulheres, mas imitações falsas dos mesmos que tem como base a sexualidade heteronormativa (revestida de homossexual).

Por fim, como veem, tudo está relacionado. Quais são os efeitos produzidos quando eu afirmo que “até parece que tal pessoa não é mulher”? E por que “até parece” e não “não é” logo de uma vez? O cissexismo sutil dessa frase está na ideia de que um útero (ou a designação ao nascer) prende a humanidade de Dilma na categoria mulher, e que ela não poderia não ser mulher uma vez que tem um útero (por isso o “até parece”). Dentro do contexto de um protesto contra o Estatuto do Nascituro, é só somar 2+2. Quando eu reafirmo isso, estou reafirmando as supostas bases biológicas que produzem e reproduzem o gênero. É um reforço, novamente, do binarismo, um ode à biologia. A maioria das feministas prefere ignorar os efeitos de seus discursos na manutenção do sistema de gênero em prol de uma defesa da mulher. Mas sempre me pergunto a quais mulheres se referem. Além disso, a manutenção de um sistema rígido de gênero que classifica os corpos em masculinos e femininos, mantendo a noção do “sexo oposto” interessa a quem? Quanto menos acharmos que “feminino” e “masculino” são exclusivos dos sujeitos que se identificam como mulher ou homem, e que são opostos binários e não tipos de expressão de gênero altamente subjetivos que se mesclam e intersecionam, mais contribuiremos para um mundo longe das diferenças perversas que alimentam o machismo e também a transfobia.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Tipo as pessoas que ofendem o Feliciano pelos motivos citados, mas fazem piadinhas com o Ronaldo por que ele dormiu com as colegas. Facepalm > 9000

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  2. Eu estive no Ato, e posso dizer que o grito em relação à Dilma não foi de conotação preconceituosa, e sim de estranhamento no sentido de uma mulher deixar algo assim passar, que tolhe o direito dela mesma.

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    • A intenção na hora que se profere o discurso tem pouca valia; como eu coloquei, me pergunto quais são os efeitos do que se fala, do que se diz. A intenção não isenta ninguém da responsabilidade de reproduzir um discurso perverso. Acho que temos que parar de procurar desculpas e começarmos a refletir sobre a nossa responsabilidade enquanto ativistas, pois temos amplo acesso à informação. Deveríamos saber, porque a informação está aí, basta ter interesse em procurar.

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  3. Menina, mas que texto maravilhoso….

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  4. Eu vinha pensando nisso esses dias… Vi muita gente ofendendo o Feliciano por causa do projeto da “cura gay”, fazendo piada de que ele seria o primeiro. Ou seja, as pessoas estavam agindo com o mesmo preconceito de quem acha que homossexual precisa de cura. Ou então quando falam que o problema da Dilma é falta de pica. Ou seja, sempre existe um reducionismo, um preconceito, alguma coisa para ser usada e ofendida.

    Essa sociedade me enoja às vezes.

    Ótimo texto. :D

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  5. É esse tipo de questionamento que precisamos, Começa em nós.

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  6. Parabéns por esse texto, eu vinha falando isso quando vi a galera chover de comentário misógino pra cima da Mara homofóbica. E também não aguento quando usam misoginia pra atacar a Dilma, muito feio isso!
    Temos que combater preconceitos, a binária de gênero e tudo o mais. Só assim pro patriarcado acabar totalmente!

    ps: adorei seu cabelo roxo! ^_^ cabelo colorido rules!

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  7. Concordo com a Isadora (acima). Belo texto. Parabéns.

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  8. Acho que muitas vezes usamos a mesma lógica de violência contra violência, do discriminado discriminando. Para qualquer situação. Sem refletir sobre nossas posturas, achamos que enfraquecemos o discurso do outro com argumentos que o desabonem. E reproduzimos um discurso que somente gera mais intolerância. Quando somos tratados como “o outro”, aquele que nos distingue de si e da maioria se torna “o outro” também para nós. E assumimos a mesma lógica de defesa e acusação que ele usa conosco para que consigamos conquistar um lugar, mesmo que subjetivo (e talvez principalmente) no mundo. Nos diferenciando desse outro a partir de um rol de características que supostamente o colocam em condição inferior à nossa, mesmo que usemos com ele os mesmos elementos discriminatórios e os mesmos argumentos que esse outro usa conosco.

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  9. “De que adianta a Lei Maria da Penha se nós, ativistas, estamos chamando a coleguinha de vadia para atacá-la. O mesmo ‘vadia’ silencioso que se ouvirá dos juízes, dos advogados e da sociedade quando julgarem casos de estupro e de violência doméstica.”
    Parabéns pela lucidez do pensamento e clareza do texto. E concordo plenamente com o comentário acima, da Luc Benitez.

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  10. Legal esse texto, concordo que precisamos ser críticos em relação a como nós mesmos criticamos quem ataca os direitos dos outros. Eu só faria uma ressalva: os comentários sobre a Mara, pelo menos os que eu vi, não a chamavam de puta, mas sim de hipócrita. Por exemplo, vi gente compartilhando a capa da Playboy em que ela posou nua, mas com um texto que explicava que hoje ela critica um beijo na rua, por achar que é exposição pública demais (palavras delas), mas que ela já se expôs muito mais. Isso tinha a ver com a entrevista que ela deu dizendo que os gays são aberrações porque, na sequência dessa pérola, ela disse que acha um absurdo pensar que dois homens ou duas mulheres podem se beijar na rua, na frente de todo mundo, porque isso é exposição demais da intimidade. A agressão a ela não estava centrada no fato de ela ter posado nua, em si, mas sim no fato de ela criticar comportamentos que ela já teve.

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  11. Uauu que belo texto !! Mais claro impossível… adorei !
    Na realidade ele trabalha para deixar claro, mais uma vez, que de nada adianta querermos a mudança social, se ela de fato não começar por nós mesmos, o que nunca é fácil, por que exige um policiamento e analise constante, mas é o caminho .
    E é um caminho sem volta esperamos ! Para pararmos de apoiar por um lado, e continuar criticando ou pior “aceitando parcialmente” na realidade por outro…
    Parabens !!! :)

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    • É bem isso Fernanda, a gente tem que mudar certos comportamentos que temos, e deixar de lado a ideia de que porque somos ativistas já alcançamos um certo status moral inabalável. Todo mundo vai escorregar um dia, e acho que o primeiro passo é reconhecer isso.

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  12. Oi, seu texto foi muito esclarecedor, obrigada.
    Estou iniciando minha leitura no tema, com o seu blog percebi que tenho um longo percurso de leituras e entendimento.

    abraço.

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