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A possibilidade do vagão feminino em São Paulo revela como muito do feminismo ainda está disposto a rifar o direito das pessoas trans*

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Nosso direito de ir e vir será comprometido caso os tais vagões femininos forem aprovados e passarem a vigorar em São Paulo. O caso é simples: é a velha transfobia mulher-trans*-é-na-verdade-homem e por isso existem altas chances de sermos impedidas de adentrar no vagão, ou expulsas dos mesmos, caso já estejamos lá dentro. Isso já ocorreu no Rio.

As mulheres trans* que passam, como eu, estarão sob uma grande pressão para continuar passando. Ou seja: nada mais de sair de casa com calça pescador, shorts ou saia – exceto se você tiver se depilado, o que não é meu caso.

Assim funcionam e continuam a funcionar os mecanismos que enrijecem ainda mais o sistema binário de gênero, reforçando a ideia de homens e mulheres como categorias essencialmente distintas.

Certas feministas argumentam por um lado que seria terrível para nós trans*, enquanto de outro apoiam o projeto como algo paliativo. O engraçado dessa posição é o fato de que o tal “paliativo” ser somente um (suposto) privilégio para mulheres cis. Novamente vemos à mostra o cissexismo que se instalou no feminismo quando situações como essa ocorrem: não demoram em rifar nosso próprio direito de ir e vir em prol de uma medida pseudo-positiva para mulheres cis. Aliás nos debates que vejo por aí, sequer se lembram que uma parte inteira de mulheres será sumariamente excluída do transporte público.

Ou vocês acham que estaremos dispostxs a arriscar?

Cheguei a ouvir o argumento absurdo de que seria justificável a exclusão de pessoas trans* pois somos minoria demográfica em relação às mulheres cis. Tal argumento também é usado pela heteronorma quando deseja excluir sumariamente pessoas LGB. “Heterossexuais são a maioria” – e, por isso, suponho que seja legítimo negar direitos fundamentais a uma parcela da população que os reivindica.

A medida não só afeta nós mulheres trans*, como também irá prevenir homens trans* de utilizarem o transporte. Não há um colega meu sequer que ache a ideia de freqüentar vagões femininos algo positivo em favor da suposta segurança de não usar o masculino.

De novo: nem quem passa como cis estará segurx, quanto mais quem não passa.

A situação dos vagões é exatamente a mesma que vivemos com os banheiros: Num te xingam e te expulsam (ou olham feio, no mínimo) e no outro há altos riscos de violência física E sexual para ambxs homens e mulheres trans*.

Acho que preciso lembrar que a exclusão gerada pela prevenção de acesso a banheiros gera/gerou pessoas trans* (especialmente mulheres) com problemas urinários. Sim, não foram poucos os relatos que ouvi em círculos de conversa, onde muitas relatavam segurar a vontade de ir ao banheiro por até um dia inteiro, para poder usar em casa com segurança. Experimente fazer isso um dia. Agora imagine todos os dias durante anos.

Pessoas trans* já sofrem uma enorme exclusão física e simbólica de praticamente todos os espaços sociais. Como bem disse Berenice Bento, as pessoas trans* somem dos espaços de convívio social para serem encontradas nos espaços das clínicas – lá bem catalogadas e avaliadas. Uma medida como essa contribui para tal exclusão, negando um direito básico – o transporte – a todxs que ousamos nos identificar de forma diferente daquela designada em nosso nascer.

Não há – repito não há – absolutamente nada negociável que seja remotamente um benefício nem mesmo para mulheres cis. Afinal, o projeto é um machismo revestido de benefício. Em vez de lançarem campanhas anti-assédio (e outras medidas como melhor fiscalização e, quem sabe, acreditar nas mulheres que foram assediadas – sim, pois é), preferem usar essa medida que exclui parte das mulheres e reforça a lógica machista de que homens não podem ser educados para não assediar/estuprar.

Ao separar homens e mulheres, a mensagem que se está passando é: “não temos interesse em educar os homens para não serem machistas, temos interesse em separar e reforçar a suposta oposição dos sexos”.

Resta saber se o feminismo irá rifar nossos direitos, ou finalmente nos reconhecer como mulheres e, com isso, defender também nossos direitos.

[Edição 11:50: Gostaria de colocar que o uso dos termos “passar/não passar” foi utilizado apenas para identificar quem socialmente será lidx como trans* e por isso mais passível de violência física-verbal. Certamente que não me interessa nem um pouco debruçar sobre qualquer elemento “quantitativo” no que diz respeito a “passar” – ou seja, não me interessa avaliar pessoas trans* pela capacidade de passar ou não, nem medir transgeneridade, ou qualquer outra subjetividade usando isso como régua. A intenção aqui é meramente demonstrar que pessoas que passam como cis mantêm certos privilégios em relação a quem não passa. Isso tem que ser apontado inclusive para denunciar o caráter cissexista dessa lógica].

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. como sempre, ótimos textos! criar um vagão só pra mulheres tira totalmente o direito de ir e vir não só das Ciss, mas principalmente das Trans…. essa medida só vai aumentar a transfobia que tanto lutamos pra combater….

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  2. Interessante o seu post! Obrigada por compartilhar suas reflexões, me ajudaram a clarear algumas ideias. Fiquei, por algum tempo, pensando que adotar vagões exclusivos de mulheres no metrô poderiam ser uma solução paliativa.
    Refletindo melhor, concordo com as críticas que colocou.

    uma beijoca, mulé! =)

    Responder
  3. Lindo post, Hailey! Obrigada! <3

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  4. Hmmm, tô meio por fora, mas por que os homens trans são excluídos? Eles não podem continuar usando os vagões não exclusivos como sempre?

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    • Luciana, o problema é que nem todo homem trans tem passabilidade e pode sofrer violência da mesma forma caso sejam lidos como mulheres ao utilizar um vagão não exclusivo… e ao utilizar os vagões exclusivos para mulheres podem sofrem disforia pois estarão utilizando um vagão direcionado ao gênero do qual não se identificam.

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  5. “Resta saber se o feminismo irá rifar nossos direitos, ou finalmente nos reconhecer como mulheres e, com isso, defender também nossos direitos.” Olá, você escreve muito bem. Mas, penso que você não conhece muito bem o feminismo para fazer uma afirmação dessas. Dizem que existem várias correntes dentro do feminismo, talvez esse feminismo que você tenha contato não seja o mesmo que eu conheço. A questão é que todas as feministas que já conheci defendem a igualdade em todos os aspectos e isso inclui a luta contra a homofobia e qualquer tipo de preconceito relativo a sexualidade. Essa ideia de vagões exclusivos certamente não saiu da cabeça de feministas, pois me parece um tipo de segregação, uma violação ao direito da mulher de ir e vir. Uma das consequencias negativas mais evidentes poderá ser a legitimação dos assedios que ocorrerem em vagões comuns, comos e não abstasse a cultura do estupro já existente. Só queria esclarescer, porque como feminista achei revoltante essa ideia os vagões exclusivos.

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