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Porque o transfeminismo deve englobar todas as outras lutas e todas as outras lutas devem englobar o transfeminismo

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Traduzindo um texto sobre Anarquismo e Transfeminismo (que deverá sair em breve no blogue do Transfeminismo) senti necessidade de reforçar o caráter intersecional do Transfeminismo.

Isso quer dizer que Transfeminismo e Feminismo Intersecional são correntes afins. Muito embora o Transfeminismo seja uma corrente que vise majoritariamente empoderar pessoas trans*, não considerar outras questões como racismo, classismo, capacitismo, homofobia, lesbofobia, gordofobia e outras discriminações é repetir o mesmo erro do Feminismo Branco que unifica a experiência de todas as mulheres sob um único prisma, analisando as opressões que as mulheres sofrem através de uma única lente ocidental, branca, de classe média, sem deficiência, magra, heterossexual e cisgênera.

Já repeti várias vezes que não há como separar as opressões nem tampouco hierarquizá-las. Uma pessoa não é mulher num dia e trans* no outro. Sua identidade não pode ser dividida em prol de uma análise aglutinadora de opressões. É preciso entender que as mulheres não são iguais, e como tal sofrem as mesmas opressões de formas distintas.

Afirmo isso em negrito porque o discurso do igual tem sido usado para mascarar certas particularidades de nossas vivências – e opressões – tão historicamente negligenciadas por todos os movimentos sociais. Se somos iguais então eu posso tratar um homem cis negro morador de rua da mesma forma que eu trato um homem cis branco de classe média, não? O exercício de localização do espaço de onde se enuncia e para quem se enuncia continua estéril. Opera aqui então uma falsa simetria baseada no discurso da igualdade.

Não somos iguais. Uma vez compreendido que somos diferentes – e que isso não é um problema – verificaremos que certas concepções que temos para tratar certas pessoas não serão as mesmas para tratar outras. Porque cada indivíduo, em sua particularidade, necessita de diferentes compreensões. A questão das cotas é um bom exemplo disso. Muitxs usam a falácia da igualdade para afirmar que pessoas negras estariam sendo discriminadas, quando na realidade, sabemos que dentro de um escopo histórico de marginalização e exclusão, as cotas são mais do que necessárias considerando o abismo desigual entre o acesso à educação para negrxs e brancxs. Uma vez compreendido que não somos iguais e sim diferentes, entenderemos que diferentes pessoas têm diferentes necessidades e, principalmente, diferentes experiências.

O mito da mulher universal é algo que o transfeminismo combate(u) justamente por reproduzir uma forma de pensamento que impedia certos acessos de certas mulheres e mantinha certas outras no pequeno poder. Não há intersecionalidade numa visão que não compreende as particularidades de cada opressão.

Nessa visão, se torna impossível para o transfeminismo não adotar outras lutas. Porque as mulheres trans* não são um grupo homogêneo de pessoas todas iguais. Como eu disse no começo do texto, correríamos o risco de repetir o mesmo equívoco do mito da mulher universal. A luta transfeminista deve englobar a luta anti-capitalista. Porque o acesso a determinados espaços não pode ser só de algumas (bem poucas, devo dizer) trans* privilegiadas por classe que tem dinheiro para tal. Não deve ser o privilégio das pessoas trans* que moram nas grandes capitais. Sabemos como São Paulo tem um dos melhores centros de atendimento para pessoas trans* do Brasil – e ele deixa muito a desejar, mas se compararmos com o resto do Brasil somos privilegiadas. Por isso, devemos integrar a luta para melhor acesso à saúde de todxs. A luta anti-racismo deve ser também englobada pelo Transfeminismo. Onde estão as mulheres trans* negras? Mal se encontra nos espaços de convivência social TRANS*, imagine então nos outros espaços cis-dominados. Isso tem que mudar. As pessoas trans* com deficiência(s) devem ser pauta do transfeminismo, ainda mais porque no Brasil não se pode “ter mais de duas doenças mentais ao mesmo tempo” (é isso mesmo que você entendeu: ser trans* = doença mental + ter “outra” doença mental = impossível segundo os órgãos médicos regulatórios).

A luta anti-gordofobia deve também ser pauta trans*. Interseciona-se com capacitismo na medida em que há prevenções de acesso a certos lutares sem cadeiras adequadas ou com corredores estreitos, por exemplo. Recentemente, em uma mesa organizada pela Marcha das Vadias de São Paulo, as cadeiras do auditório eram pequenas e machucavam minhas coxas (os braços eram estreitos), mas preferi sentar e sentir dor a ficar em pé e ter cãibra, pois tenho péssima circulação. A passagem entre as cadeiras também era estreita, assim como nos corredores para saída do auditório. Como sempre faço, esperei todo mundo sair e afastei duas cadeiras para poder passar. Nós transfeministas e feministas intersecionais precisamos nos fortalecer para evitar repetir os mesmos erros do feminismo mainstream.

Da mesma forma, não há como defender um transfeminismo que não lute contra a homofobia, lesbofobia, bifobia, panfobia e/ou outras formas de discriminação baseadas na sexualidade. Não se considera a existência de pessoas trans* gays, lésbicas, bi, pansexuais e assexuais. Somos confundidxs com nosso gênero num misto de confusão identitária com confusão biológica, na lógica da simetria genital = homossexualidade. Homossexualidade não requer simetria genital e nem heterossexualidade requer tal assimetria.

A luta contra o machismo, decerto, também é a luta transfeminista. Assim como não se pode destruir o patriarcado com transfobia, não se destrói o cistema com machismo. São todos braços do mestre e não se destrói a casa do mestre com suas ferramentas, como tenho repetido a famosa frase de Audre Lorde. Isso está muito claro para mim, na medida em que não se combate uma opressão com outra.

Por fim, da mesma forma que o transfeminismo deve englobar todas as outras lutas, porque de outra forma está fadado ao fracasso, as outras lutas também devem englobar o transfeminismo sob o mesmo perigo. Um feminismo que não defende todas as mulheres, falha em seu próprio objetivo primário; Uma luta anti-racismo que não defende todas as pessoas negras, falha em seu próprio objetivo primeiro; Uma luta anti-gordofobia e anti-capacitismo que não compreende questões de gênero e outras, também deixará muitxs de fora; um movimento gay/lésbico/bi que falha em entender outras opressões, privilegiará certas pessoas em detrimento de outras; e claro que uma luta que visa acabar com o capitalismo e que desconsidera todos os seus eixos é uma luta que já nasceu morta. Como podem ver tudo está interligado, tudo se conecta, porque não somos Um em um vácuo. Não somo Isto e Aquilo, somos tudo ao mesmo tempo, em constante deslocamento e às vezes podem aparecer certos traços de nossa identidade que parecem dominantes, mas que nem sempre o são. Não é à toa que chamamos de intersecionalidade, justamente porque tudo se interliga. Tendo isso em mente podemos começar a construir um movimento que seja (um pouco mais) justo para todxs. Ou morreremos tentando.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Mas que texto excelente!

    Obrigado e parabéns.

    Responder

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