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Sobre o “casal trans*” e porque a mídia continua a nos exotificar e higienizar

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[Aviso: Esse texto usa o termo “passabilidade” várias vezes. O termo “passar” significa que algumas pessoas trans* “passam como cis” dentro da lógica social ciscêntrica. Ou seja, que no geral, em situações cotidianas, essas pessoas não são percebidas como sendo trans*, de acordo com um conjunto de critério cissexistas (aparência por ex.)]

Rola por aí umas matérias sobre “adolescentes transgêneros” que não são novas, mas parece que o assunto só repercutiu agora (há novas matérias que datam desse mês, mas existem outras do ano passado).

O próprio fato de o evento ser uma notícia, para mim, é por si só uma prova de como as pessoas trans* são exotificadas. Fosse um casal cisgênero não haveria nenhuma novidade. Por que duas pessoas trans* se relacionarem é notícia? Não é nenhuma novidade, sabemos que existe faz tempo (quem é trans* sabe; talvez as pessoas cis não – já que são completamente alienígenas em relação às questões trans*). Uns dizem que as notícias são positivas por questões de visibilidade. Bem, visibilidade do quê? Que existem pessoas trans*? Que elas são como quaisquer outras pessoas, exceto pelo fato de não terem vários privilégios por causa da transfobia/cissexismo?

Há várias formas de visibilizar um grupo e, principalmente, há várias formas de escrever um texto e fazer uma matéria que não reproduza cissexismo.

Considerando a visibilidade, vamos analisar a notícia. Primeiramente, são duas pessoas trans* em um relacionamento heterossexual. São brancas. São magras. Passam.

São duas pessoas trans* higienizadas pela mídia. São o casal trans* perfeito: brancos, magros, passáveis, heterossexuais.  O próprio Arin solta uma pérola transfóbica e machista em relação à sua namorada Katie: “Arin disse ter ficado chocado com a beleza de Katie e que a achava bonita demais para ser transexual.”

Como vêem, são o casal trans* higienizado para aparecer na mídia, para ganharem empatia das pessoas. “São pessoas trans* bonitas”-  afinal, repito, são brancas, magras e passáveis.  Beleza, para Arin e para a matéria, iguala passabilidade.

Nessa sociedade, as pessoas trans* que não passam e/ou que não tem acesso a determinados recursos para alterar seus corpos, são quinta categoria. O objetivo de todas as pessoas trans*, segundo a norma, deve ser se parecer cada vez mais com quem é cis. Assim, conseguirão o respeito e a empatia necessários para dar a “visibilidade” trans*. É o tropo das pessoas trans* perfeitas, aquelas que merecem nossa empatia e nossa admiração.

Em segundo lugar, os textos todos seguem com as mesmas transfobias de sempre: colocam nome civil, fazem “antes-e-depois” (ainda com fotos!), os velhos tropos ‘nasceu homem’ e ‘nasceu mulher’. Fora o fato da topicalização “adolescentes transgêneros” em quase todas as matérias em português. É um velho padrão da mídia transfóbica, topicalizar a condição da pessoa. Na matéria em inglês ainda usam termos piores como “sex swap” [troca de sexo] em frases péssimas como “meet the teen sex swap couple” [conheça o casal adolescente que trocou de sexo].

Pérolas como “It is hard to believe that just two years ago he was a girl called Emerald and she was a boy called Luke.” [É difícil acreditar que apenas há dois anos atrás ele era uma menina chamada Emerald e ela era um menino chamado Luke] existem aos montes no texto. A “incredulidade” da notícia só confirma os pontos levantados acima sobre a beleza ser o padrão cisgênero. Essas pessoas passam tão bem que é difícil de acreditar que “não são o que são hoje” já que no imaginário cissexista social, mulheres trans* são homens gays de saia e homens trans* são mulheres lésbicas masculinas.

Separei apenas essas duas notícias porque as outras seguem os mesmos padrões, com as mesmas transfobias. Não me surpreende que um blogue de esquerda como o Pragmatismo Político repita as mesmas transfobias da Veja, Folha, Estadão e afins. No quesito assuntos trans*, esses blogues estão sempre afins com a grande mídia e nunca procuram se educar ou respeitar.  A Carta Capital é outro blogue que já publicou besteiras.

Afinal, fazer uma pesquisa séria ninguém quer. A maioria se acha grande conhecedora dos assuntos trans* sem sequer fazer alguma análise mais profunda e evitar termos ofensivos. Ainda há um longo caminho para a mídia de esquerda conseguir acertar um pouco em relação às pessoas trans*.

Precisamos entender que visibilidade é mostrar a realidade das pessoas trans*. Somos gordxs, negrxs, não-passáveis; somos com deficiências, somos gays e lésbicas, somos bissexuais e pansexuais; Somos mulheres altas, somos homens baixos. Somos como qualquer pessoa, com corpos distintos e enquanto a mídia nos higienizar dessa forma, a única coisa que se ganha é hierarquização de um padrão de beleza trans* que só contribui para a transfobia.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. E seu cabelo azul é lindo *0*

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  2. gabriela pozzoli

    ótima análise, hailey!

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  3. Realmente os blogs de esquerdas falham muito em questões GLBTTP e feministas até! Vê se pode?! Quando vi algumas matérias sobre o casal e vídeos também(inclusive o da pérola transfóbica e machista da qual eu pensei ‘puts’), eu achei legal que estava rodando na internet e sendo aparentemente aceito(pq gostar de uma matéria com um casal trans “passável” é fácil, mas e nas ruas? a transfóbia reina!). E é até “”esclarecedor””, pois a maioria das pessoas pensam que as pessoas trocam de sexo por condição sexual, mas não, isso é uma questão de identidade sexual. Isso as pessoas não entendem(não pesquisam). Bom, acho que a visibilidade faz parte da quebra do preconceito, mas não do jeito que são as matérias. Não mesmo. Ótima crítica!

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    • O problema é que, como eu falei, há várias formas de você escrever um texto que não repita as mesmas transfobias…E o que me parece – pela repetição dos mesmos tropos transfóbicos – é que não há interesse da mídia em se melhorar nesse aspecto.

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  4. Muito bom seu texto Hailey. Confesso que quando vi a matéria pela primeira vez fiquei com uma impressão positiva (afinal, pra quem ainda tá engatinhando nas questões trans* prevalece a ideia de “visibilidade” num primeiro momento), mas depois dessa sua BAITA análise fiquei chocada com a quantidade de falhas rudes que essa (e outras) matérias cometem. Só tenho a agradecer pelo texto e pela oportunidade de desconstruir a falácia do “olha que bonitinho”. Muito obrigada e siga na jornada, porque é isso que a gente precisa!

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    • Obrigada Bárbara! Mas olha, percepção com essas coisas também não vem automático, esse exercício do “olhe de novo” é sempre crucial não só para as questões trans*, mas para qualquer outras questões que envolvam grupos marginalizados né. bjs!

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  5. Hailey, vc colocou em palavras o que para mim era apenas uma impressão, uma intuição. Obrigada mais uma vez.

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  6. Oi, Hailey! Adoro teus textos.
    Confesso que, como jornalista e militante na área, eu ainda cometo erros. Eu tento dar visibilidade às questões, mas tenho medo de, ao dar essa visibilidade, tornar as pessoas trans* exóticas. É um desafio imenso, mas eu me esforço constantemente. Teu blog ajuda neste sentido.
    Beijo grande!

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  7. Leilane Assunção

    Parabéns mona, profundamente lúcida e por demais pertinente sua análise…

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