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Algumas considerações sobre a questão das mulheres trans* lésbicas, bissexuais e pansexuais

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Quase toda vez que eu vejo falarem sobre transexualidade numa lista sequencial de identidades marginalizadas, ela está na próxima sequência com homossexualidade, bissexualidade, pansexualidade etc. Acredito que muito desse “hábito” vem do próprio fato que a sigla LGBT é uma sigla de identidade sexuais com o T perdido lá no meio.

Já estamos cansadxs de saber que transexualidade não é uma identidade sexual (e se você ainda não sabia, agora já sabe). Transexualidade não é uma sexualidade, mesmo à revelia do sufixo –idade que considero infeliz (mas infinitamente melhor que o sufixo –ismo).

Uma vez que tenhamos isso claro, não faz sentido agruparmos a transexualidade com outras sexualidades. Contudo, justamente porque a transexualidade não é uma sexualidade, as pessoas trans* podem se identificar como trans* e como de uma sexualidade (ou não-sexualidade).

Explico: Alguém pode ser trans* E heterossexual; trans* E gay; trans* E lésbica; trans* E bissexual; trans* E pansexual; trans* E assexual etc. O fato de uma pessoa escolher se identificar como de outro gênero, não implica que a) ela tenha uma sexualidade “natural” inscrita no corpo/identidade “original” que irá ser “transportado” com ela para a nova identidade; e b) que ela tenha que assumir “naturalmente” a heterossexualidade do gênero no qual ela identifica.

O campo do desejo é outro. Sim, pode ser e é atravessado por questões de gênero, mas nem o gênero define sexualidade e nem a sexualidade define o gênero. Não há nenhum contrato previsto da transexualidade com a heterossexualidade compulsória. Se homens e mulheres cisgêneros podem ser gays e lésbicas, héteros e bissexuais, pansexuais e assexuais, não há motivos para imaginar que com homens e mulheres trans* o mesmo não ocorra. Não há nenhuma especificidade sexual que decorre da transexualidade.

Dessa forma, lanço um apelo para os projetos de empoderamento lésbico-bissexual, tanto a partir comunidade lésbica e bissexual quanto da comunidade feminista, para convidar mais mulheres trans* lésbicas e bissexuais para participarem de seus debates. Quando vejo falarem sobre a “saúde da mulher lésbica” sempre o fazem a partir de uma perspectiva cissexista que, como sempre, associa mulher à vagina. Quase todos os problemas que mulheres cis lésbicas experienciam por sua lesbiandade, são compartilhados por mulheres trans* lésbicas, independente de terem realizado cirurgia transgenitalizadora ou não.

Há uma campanha muitas vezes sutil para que muitas pessoas trans* ojerizem seus genitais e seus corpos. A maioria de nós vai ao médico obrigado e para obter hormônios. Não discutimos sobre a saúde de nossos genitais, sobre nossa saúde sexual, sobre relações sexuais com outras mulheres (cis e trans*). Não se discute no meio trans*, por exemplo, sobre prevenção caso ocorram relações sexuais (que possam incorrer em gravidez) entre uma mulher cis e uma mulher trans*. O mesmo com homens trans* que estejam em condições de gestar.

Há certo “horror” em volta dessas discussões. Justamente porque elas evocam uma narrativa não tradicional da transexualidade – a das pessoas trans* sexualmente ativas não-heterossexuais que muitas vezes optam por não modificar seus corpos em termos reprodutivos.

O horror que surge quando se propõe discutir sobre reprodução e pessoas trans*, fez com que a Suécia (e outros países da Europa) mantivesse leis de esterilização para pessoas trans*. Não se podia demandar reconhecimento legal e manter capacidades reprodutivas. Nada mais simbólico do que uma assepsia social direta desses sujeitos.

Voltando nas questões de lesbiandade, ainda sofremos muito escondendo nossas sexualidades dos agentes médicos reguladores do Estado, que cobram nossa heterossexualidade compulsória sob o custo do nosso “tratamento”(sic) transexual. O mesmo ocorre com a bissexualidade com outras particularidades que envolvem a bifobia. Nosso “armário” é, sobretudo, nos espaços das clínicas onde precisamos mentir para tentar acessar o atendimento médico específico para pessoas trans*.

Precisamos falar sobre nossas bissexualidades, pansexualidade e lesbiandades, a partir de uma perspectiva intersecional que leve em conta nossa condição trans*. As mulheres trans* lésbicas/bissexuais/pansexuais precisam ser chamadas para discutir juntamente com as mulheres cis lésbicas/bissexuais/pansexuais. É urgente que o ativismo quebre essa ligação invisível entre identidade sexual e genital, pois há tempos que ela não consegue mais abarcar a pluralidade de corpos e identidades.

 

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Hailey, tenho conversado com pessoas que usam o termo sexodiversos e sexodiversidade para não usar o termo LGBT. Este seria um termo invisibilizador? Ou seria mais um termo que limitaria à questão da sexualidade?

    Porque tenho esse vício da sigla LGBT que você cita no primeiro parágrafo e fora que sempre é bem complicado listar, sempre acaba-se esquecendo alguma interseccionalidade.

    Responder
    • Ah, talvez seja melhor, mas me incomoda mesmo assim. Ainda “tem cara” de sexualidade sabe? Mas enfim, eu também uso a sigla, embora sempre tente jogar uma crítica toda vez que uso – até porque sabemos que o LB e T estão na sigla de enfeite né, cada um desse grupos acaba militando separadamente porque a militância gay tomou o movimento inteiro e tb a sigla.

      Logo, acho mais produtivo também começarmos a segmentar (sim, pois é): movimento lésbico, movimento bissexual, movimento trans*. Acho mais honesto do que fingir que as demandas não-gays estão sendo/serão atendidas sob os termos LGBT ou sexodiverso.

      Responder
  2. Marília Pacios

    Hailey, bom dia. Estamos no mês da visibilidade lésbica e eu li o seu texto e identifiquei nele todo o discurso que eu tenho feito sobre a inclusão de mulheres trans* lésbicas e bissexuais nos eventos que vão ocorrer ao longo desse mês. Você sabe se já tem alguém ou algum grupo se articulando nesse sentido? Ou você sabe de pessoas que estejam procurando mais braços, cabeças e corações para se unirem em prol dessa discussão? Ah, sou de SP capital.
    Obrigada e bjs.

    Responder
    • Tirando as blogagens coletivas, desconheço grupos feministas e/ou lésbicos-bissexuais que estejam se articulando com questões trans*, se foi isso que você me perguntou.
      bjs

      Responder
  3. Pingback: Quando o gay revolucionário se torna opressor | o grito da bicha

  4. eu moro em Los Angeles e tenho muitos amigos e amigas trans, a maioria usa o termo que seria traduzido como Transgeneros, acho que nunca os ouvi dizer transexualidade por aqui! Achei interessante o artigo e eh legal que com o passar do tempo acredito que isso tudo vai sendo mais e mais discutido e num futuro (que eu acho que nem eh tao longe assim) a questao de genero e desigualdade no que se refere a isso serao coisas das geracoes passadas :D

    Responder

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