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Onde está nossa sororidade?

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Essa semana houve uma série de discussões sobre sororidade por causa de um texto da Bia no blogue dela, criticando certas utilizações do conceito, e como poderíamos pensar em um conceito que abarcasse todxs.

Curiosamente, pensar em uma sororidade que abarque todxs gerou acusações de misoginia, de insinuar que Bia disse que “não se deve confiar em mulheres” e acusações de “sorofobia” (ainda desejo escrever sobre como é altamente ofensivo criar um opressão inexistente, como isso diminui outras opressões e por si só demonstra o nível raso de conhecimento de como opressões funcionam pela pessoa que afirma isso – ou me mostrem onde essa “sorofobia” é estrutural e institucionalizada?).

Eu queria estar surpresa, mas vindo do naipe de feminismo de onde vem já imaginava que essa seria a resposta. A lente míope desse feminismo que só enxerga a si mesmo e acredita piamente que o feminismo é perfeito e inclui todxs. Que lindo, um sonho! Esse feminismo que não aceita críticas advindas de homens e inclusive de mulheres feministas – transformando tudo em misoginia (a banalização desse termo tem me incomodado também). Enquanto isso, esse feminismo silencia e cala vozes trans* e vozes de mulheres negras (exceto quando tais vozes servem aos seus propósitos, no mais belo estilo “minoria a tiracolo” tokenista, para ser usado como argumento de defesa quando denunciadas de alguma opressão).

Nada novo: os modos de subjetivação dominantes capturando o ativismo: “Não sou transfóbica tenho até amiga trans*; compartilho campanhas anti-transfobia” / “não sou racista, meu marido é negro; tenho amigas negras;  compartilho imagens de ativismo negro” / Não sou machista, tenho mãe e esposa; sou feminista; etc. – claro que, nesse último caso, todas essas feministas reconhecem que se trata de uma estratégia do opressor de se desresponsabilizar sobre o machismo que reproduz. Mas não conseguem reconhecer o mesmo em seus discursos e, no desespero de se livrar das denúncias que mancham suas imagens de feministas imaculadas, usam feminismo como escudo de forma desonesta e, inclusive, de forma a minimizar as pautas do feminismo, chamando essas pessoas de “agressoras”, “misóginas”, “perseguidoras”, “machistas” entre outras coisas. Certa feminista famosa ainda disse o cúmulo de que se várias pessoas não gostam de uma minoria, não é transfobia. Poxa, tal feminista por ser famosa tem várias inimizades mascus. Então não é misoginia? É só “não gostar” dela? Entendi.

Só que não.

Esse discurso de defesa da sororidade, como bem disse a Bia num segundo post, corrobora a ideia de feminismo que não transa críticas, de sororidade só para algumas. Enquanto isso, esse feminismo passa como um trator por cima de outras mulheres que não se encaixam em seus grupos higienizados feministas ou que ousam criticar seus métodos. Sim, nesse episódio vemos sem dúvida alguma como a sororidade tem sido usada para silenciar outras mulheres, inclusive deslegitimando o discurso delas as chamando de misóginas e sorofóbicas, simplesmente por ousarem criticar CONCEITOS.

Não é a toa que o transfeminismo, crítico do feminismo que exclui e maltrata (sim maltrata) pessoas trans*, é alvo de todo tipo de ataque com base na sororidade seletiva.

Mas eu me pergunto, onde está a nossa sororidade? Não somos também mulheres?  Se sororidade é uma ferramenta de empoderar e acolher mulheres, porque eu e outras feministas não sentimos isso de forma alguma, ou melhor, pelo contrário nos sentimos violentadas por essa sororidade?

O que dizer de feminismos que fazem políticas de extermínio, vigiando leis que beneficiam pessoas trans* para derrubá-las e enviando textos à ONU para se opor a resoluções que reconhecem direitos humanos às pessoas trans*? (sim, você não leu errado, confira os links e segure o cu porque ele vai cair).

Isso é sororidade? Não podemos criticar essas feministas por impedir e promover políticas que diretamente nos prejudicam? E porque quando se pede que a tal sororidade “boa” seja estendida a todxs, isso gera revoltas e acusações de desunião?

Porque sororidade é para umas privilegiadas que são aceitas no clubinho e que se calam diante das violências cometidas contra outras mulheres. É algo privilegiado reservado àquelas que não aceitam denuncias de racismo e transfobia no feminismo, porque julgam que isso é prejudicial pro feminismo.

É prejudicial um feminismo livre de racismo e livre de transfobia? Entendi.

Sororidade para mim, assim como qualquer coisa que envolva a palavra “radical”, é um termo que é extremamente trigger. Me faz automaticamente rejeitar qualquer pessoa que defenda isso, porque para mim sororidade é sinônimo de violência, de silenciamento e de irresponsabilidade.

Querem ressignificar o termo e querem defender um conceito “bom”? Acham que eu estou exagerando ou distorcendo? Então comecem a trabalhar em uma sororidade que aceite críticas e que DE FATO inclua todxs.

Caso contrário, meu feminismo não tem espaço para tal violência.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Republicou isso em Porcausadamulhere comentado:
    Reflexões importantes sobre sororidade.

    Responder
  2. Catando os caquinhos do cu no chão…

    Responder
  3. achei seu blog por causa de um comentário no FB e nossa, como eu preciso me informar mais! tem muita coisa que vc diz nos posts que eu entendo, mas não profundamente e tem coisas (como o post do casal trans* q eu compartilhei no FB achando lindo e não tinha pensado no seu ponto) enfim! continuarei lendo.

    Responder
  4. Pingback: A sororidade que não transa críticas | Groselha News

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