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Uma pequena reflexão sobre masculinidade(s)

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Eu estava com alguns desses pensamentos essa semana, e talvez não seja tão díspar publicar esse texto na semana da visibilidade lésbica e bissexual. Não para fins de reforço do estereótipo das mulheres (cis e trans*) lésbicas como masculinas, mas porque sabemos que muitas mulheres lésbicas e bissexuais podem se identificar com o espectro masculino, sem prejuízo para suas identificações de gênero – em especial no caso de mulheres trans* masculinas, cujas identidades são deslegitimadas tanto no meio trans* quanto fora dele.

Quando tive meu primeiro contato com feminismo, o que se falava sobre masculinidade é que era algo inerentemente ruim, e que não devíamos dar espaço para tal discussão uma vez que homens não sofrem machismo (a priori). Essa associação homem-masculino sempre vinha acompanhada da associação agressividade-masculino. O masculino é ruim porque está associado com agressividade, que por sua vez está associado a homens.

Lendo alguns artigos e livros, especialmente o novo livro da Profª Berenice Bento[1] que discorre sobre masculinidades, percebi que precisamos rever certos conceitos que talvez se revelem um pouco ultrapassados. Já me incomodava a associação de masculinidade com o “ser homem” – afinal, conhecendo a multiplicidade de possibilidades relacionadas ao(s) trânsito(s) de gênero, jamais poderia concordar com tal associação. Não é preciso ser homem para ser masculino e nem ser mulher para ser feminino. Masculinidade e feminilidade não são elementos intrínsecos dos sujeitos que se identificam como homem ou mulher, a despeito do projeto de gênero que tenta coercivamente produzir e reproduzir o conjunto binarista homem/masculinidade/pênis e mulher/feminilidade/vagina.[2]

Não posso deixar de mencionar também, a associação que faço à emergência de um campo de estudos sobre cisgeneridade. A existência do campo de estudos sobre transexualidade/transgeneridade (tanto médico quanto antropológico) nos coloca na posição de Outrxs, de uma categoria estranha à norma, passível de análise fenomenológica. Se somos uma categoria analisável, porque as categorias hegemônicas não o seriam? Que elementos fazem tais categorias serem imunes à antropologia, porquanto as identidades marginais são exaustivamente exploradas (em todos os sentidos)? Quais dispositivos posicionam essas categorias como ontológicas?

Dessa forma, masculinidade deve figurar um campo de estudos e análises, tanto para desfazermos essas ideias míticas de homem-agressividade-masculinidade, quanto para deslocar os estudos da mulher/feminilidade como “estudos de gênero”. Gênero virou sinônimo para mulher e feminilidade, e isso não dá mais conta. Certas feministas negras já trouxeram no passado (e continuam no presente) várias análises proveitosas sobre masculinidade. Meu “chute” é que havia (e há) necessidade de desconstruir o estereótipo racista do homem negro como “mais viril”, hipersexualizado e “mais propenso” ao estupro do que homens brancos. Sabemos que no imaginário social racista, homens negros são vistos como mais perigosos – inclusive sexualmente. Talvez (outro chute) isso seja herança do racismo escravocrata, que posiciona(va) negros como mais viris/machos inclusive no quesito trabalho. Nessa visão, se eles “aguentavam mais” o trabalho árduo, certamente eram mais “machos”. Esse estereótipo irá se estender às mulheres trans* negras, na interseção racismo/machismo/transfobia, na lógica das mulheres trans* negras como mais “fáceis”, com pênis mais desejáveis (no caso de  mulheres pré e não-op), mais sexualmente ativas (nesse sentido também mais viris) e, certamente, mais descartáveis (o índice de assassinatos de mulheres trans* no mundo é extremamente maior no caso de mulheres trans* negras).

O estereótipo que coloca a agressividade como sendo inerentemente masculina, ou vice-versa (o masculino é inerentemente agressivo) reproduz a ideia de uma agressividade universalizada (o que é ser agressivo afinal? Para a sociedade, as feministas no geral são “agressivas” e por isso menos mulheres/femininas – a própria ideia de feminista mal-amada/comida, através da heternormatividade, faz alusão a isso). Mas se as mulheres lançam/lançaram mão de uma “boa agressividade” que é/foi justificável dentro da luta contra o machismo, sabemos que tal “boa agressividade” é relativa dependendo da posição que um grupo marginalizado adota em relação ao outro. Para as feministas transfóbicas (mas não só), as mulheres trans* são agressivas porque são na realidade homens (ou são na realidade homens e por isso são agressivas). Para as brancas, as demandas e críticas das feministas negras são também consideradas uma agressividade. Tais quais as mulheres trans*, as negras são vistas como mais agressivas que as brancas (o estigma das mulheres barraqueiras recaí em especial nas negras e trans*), e por isso não são incomuns os discursos que deslegitimam as críticas dessas mulheres com base no tone policing (policiamento do “tom” do discurso). Por isso, a agressividade pode adotar diferentes significados dependendo do grupo que a utiliza, e não pode ser universalizada muito menos essencializada.

Além disso, minha recente aproximação com vários homens (cis e trans*; que se identificam como [trans]feministas ou não), foi importante para que eu passasse a ver masculinidade com outros olhos. Esse homens me ajudaram a desconstruir uma ideia de masculino como pior. Ainda mais, como mulher trans*, nos discursos vigentes binaristas sobre gênero eu jamais poderia demonstrar traços de masculinidade, sob o risco de perder meu status de mulher. Isso ficou bem claro em uma situação que uma feminista transfóbica pegou uma foto do meu FB para exemplificar como eu era, na realidade, homem. A foto trazia uma discussão onde eu brincava com um amigo gay (que agora se identifica como bissexual, creio) que eu “viraria homem para pegá-lo”. Certamente, nenhuma mulher cis que fizesse tal brincadeira seria alvo de deslegitimação de sua identidade. Sequer se fosse uma mulher cis masculina. Mas temos que nos perguntar o porquê de no caso das mulheres trans*, qualquer mínimo detalhe que possa ser interpretado como masculinidade é usado como ferramenta para deslegitimar a identidade dessa mulher. Além disso, o que dizer das mulheres trans* masculinas? Por que ser uma mulher cis masculina não deslegitima essa pessoa como mulher, mas no caso das mulheres trans* isso é um “óbvio” sinal que somos, na realidade, homens? É a velha associação “homens/masculinidade/pênis” que citei no começo.

Em suma, esse texto foi um conjunto de questionamentos que eu estava(estou) alimentando há algum tempo – especialmente por causa dos meus próprios preconceitos em relação a certas práticas consideradas masculinas, como a própria noção de agressividade. Nós mulheres trans* nunca somos vistas como mulheres porque nunca vencemos no jogo cissexista-essencialista do “ser mulher”. Se somos femininas, somos acusadas de reforçarmos os estereótipos de gênero e de sermos artificiais. Se somos masculinas, somos acusadas de não “tentarmos o suficiente” e de sermos na realidade homens. Está na hora de superarmos esse binarismo prejudicial, e começarmos a ver que gênero é algo mais complexo do que pensamos, com infinitas nuances presente em diferentes corpos.


[1] O nome do livro é “Homem não tece a dor: Queixas e perplexidades masculinas”.

[2] A associação do pênis como sendo algo inerentemente masculino é algo que desejo discorrer em outro texto, em especial pelo surgimento de identificações que desafiam tal associação, como mulheres trans* (pré e não-op) que referem aos próprios genitais como girl cock ou femmecock [pênis de menina ou pênis feminino].

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

Uma resposta »

  1. tenho uma dúvida, comecei recentemente a ler sobre questões de gênero e por consegüinte minha desconstrução do binarismo em que fui criadx.

    Como você definiria (conceituaria, talvez, se definir for uma palavra muito forte) gênero?

    Pelo que já vi em v/blogs e livros, entendi que geralmente remetem a um linear contínuo com extremos no masculino e no feminino (e ‘‘à parte’’ ‘pessoas que não se consideram de gênero nenhum). Pra mim isso faz um pouco de sentido, uma pessoa que se identifica como mulher ter características femininas e analogamente para o homem. Obviamente, por ser uma linha existem infinitas possibilidades de estar próximo de um extremo ou de outro (ou até mesmo no meio, bi-gênero).

    Lendo o seu texto vi alguns problemas nessa (minha) lógica de entendimento, o mais claro seria a analogia masculino/homem, feminino/mulher.

    Eu falei de uma maneira simplista, até porque não são uma ou duas características que definem sua feminilidade (resp. masc.), e não são coisas mensuráveis, a idéia que tenho da linha é meramente ilustrativa, só pra mostrar que existem os dois pólos (masc/fem) e muita coisa entre eles e que cada pessoa, un/mas mais outro/as meno/as se identificam mais próximas de um pólo (ou não).

    Desculpa se fui meio confusx, é pq está tudo confuso ainda para mim.

    Obrigadx

    Responder

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