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O autoempoderamento é um exercício diário.

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Essas últimas semanas tem sido difíceis para mim, em todos os aspectos da minha vida[1], mas em especial na dimensão da minha própria autoestima. Todas as pessoas trans* sabem como esse aspecto de nossas vidas é custoso, porque lutamos diariamente contra discursos que visam deslegitimar nossos corpos e identidades, nos colocando à margem do humano, do inteligível.

Uma das principais bandeiras do Transfeminismo é o empoderamento das pessoas trans* em seu aspecto pleno, ou seja, contemplando o empoderamento de nossos corpos. Quando eu bato na tecla insistentemente de que mulheres trans* são mulheres, e quando luto para que nenhum discurso feminista usurpe a categoria de mulher para atender a sua própria agenda cisgênera, isso também é empoderar nós mulheres trans* que desejamos ser vistas como mulheres de mesma categoria que as mulheres cisgêneras, isto é, ter a mesma legitimidade – pois dizer que somos mulheres também é desafiar as ontologias que relegam nossos corpos como masculinos e que contribuem para nossas disforias. É desafiar as ontologias que reificam nossos corpos.

Eu, como muitas mulheres trans*, sinto disforia(s) – muito embora em menos frequência do que várias colegas que conheço – mas em especial, minha disforia vem intersecionada de auto-gordofobia. É difícil não ver meu corpo como disforme em relação às normas que orientam o que são corpos femininos dentro de um conjunto de critérios, como curvas, por exemplo. Uma das minhas maiores fontes de disforia, são meus seios, porque sempre os acho incompatíveis com o resto do meu corpo. Sempre achei que mulheres gordas “combinam” com seios grandes e fartos, e que ser uma mulher gorda com seios pequenos é tremendamente desproporcional. Eventualmente essa disforia vem e vai, mas nunca passa – e nunca passará. O que necessita mudar é a forma como eu lido com isso e como me empodero, e esse empoderamento tem que ser diário, pois é diariamente que somos agredidxs com os discursos violentos normatizadores de corpos.

Isso tudo se soma ao fato de uma das minhas crises há muito tempo ser relacionada ao fato de eu não conseguir sentir absolutamente nada, pois as ações químicas dos hormônios que eu tomo possuem esse efeito colateral violento (isso no meu caso, pois vale lembrar que cada pessoa trans* possui um corpo distinto e embora haja certa universalidade nas ações do hormônio, cada caso é individual). Gostaria mais para frente de escrever um texto sobre como os hormônios podem ser violentos na constituição do que nós entendemos por “corpos trans*” e o que abrimos mão para manter uma aparência passável dentro de um escopo cis, além da falta de pesquisas da área de tecnologia farmacêutica para criar alternativas com efeitos colaterais indesejáveis.

Dito isso, gostaria de deixar, ao fim desse pequeno texto, uma sugestão: todos os dias, quando sair do banho, se ame. Se olhe, se toque, se deseje.  Se queira. Não é fácil, você não vai conseguir todos os dias; eu não vou conseguir todos os dias; mas se amar deve ser um exercício diário. Nossa emancipação começa (ou deve começar) no espaço privado de nossos quartos e banheiros. Nosso amor deve começar individualmente. Nosso empoderamento está nesses pequenos atos de amor e de auto-desejo, onde o olhar do outro não importa – ou não deveria importar – o nosso próprio olhar que importa, e convenhamos: somos lymdxs <3

 

 


[1] Algumas pessoas leram meu desabafo no FB e me apoiaram lymdamente, obrigada <333

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

»

  1. Linda Hailey! Adorei o texto. Apesar de falarmos de lugares diferentes, me identifiquei muitíssimo. Meus seios são bem pequeninhos, quase inexistentes, hehe. E isso durante muito tempo foi um problema pra mim, agora a intensidade desse ‘problema’ diminuiu bastante, mas de vez em quando volta. Algumes amigues me diziam coisas como “vc tem que gostar do seu seio como ele é, teu incômodo é cultural” etc. Coisas que, de maneira mais ou menos indireta/inconsciente, acabavam por fazer com que eu me sentisse culpada, como se fosse algo exclusivamente meu o incômodo pelo tamanho dos seios, EU que era uma boba por me importar com essa coisa ‘banal’, numa individualização de algo que é muito maior…Acontece que, ok, é cultural, é construção, mas vivemos – a despeito de nosso querer – nessa cultura, e o fato de eu concordar ser uma construção não implica que isso – por um toque de mágica – desapareça/se transforme. A Terê de Lauretis tem uma frase de que eu gosto muito em que ela diz: ”gênero é (uma) representação – que não significa que não tenha implicações concretas ou reais, tanto social quanto subjetivas, na vida material das pessoas. Muito pelo contrário” Já li alguns textos teus em que vc fala sobre isso tb ;). Enfim, como diz o título do teu texto, o empoderamento é um exercício diário e me fez pensar muito que: não é culpa nossa se sentir mal/desconfortável com partes do corpo. Mas o mais incrível de tudo é que, desse terreno inóspito de violências e normatizações, nasce resistências. Nasce a flor no asfalto. E é uma flor LINDA, uma flor azul, tipo vc, querida, cuja graça independe do tamanho de qualquer coisa no teu corpo lindo <333

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    • Awwwww que fofa vc <333 mas sim vc tem toda razão (e obrigada pelo seu relato), por vezes os discursos~~libertários~~ concorrem pra nos sentirmos culpadas pq não superamos esses "problemas" que temos com nossos corpos, como se meia dúzia de textos feministas fosse resolver isso de uma hora pra outra. Eu entendo como um exercício diário, porque requer que estejamos o tempo todo nos empoderando, o empoderamento não pode ser algo que nós acessamos quando estamos mal, mas sim um status permanente nosso. <3 bjs lymda

      Responder

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