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Meu feminismo defenderá e apoiará as mulheres que desejam incorrer em estereótipos e as que não: O paradoxo da escolha

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Um tópico que sempre surge como forma de ataque às mulheres trans* é como muitas reproduzem estereótipos de gênero e como isso seria prejudicial. A base fundamentalmente transfóbica desse argumento é a ideia de que só mulheres trans* reproduzem estereótipos de gênero, estando mulheres cis então isentas de reproduzirem quaisquer desses mesmos estereótipos.

Mas o ponto aqui não é ficar policiando quem reproduz ou não reproduz estereótipos de gênero. Eu não poderia me importar menos, porque policiar mulheres pelo seu comportamento/roupas/feminilidade etc., já é o que o machismo faz muito bem, vale lembrar.

A questão é porque polarizamos um certo debate amargo no feminismo, aquele sobre indumentária estereotipicamente feminina, sobre feminilidade. Por um lado, acredita-se que a feminilidade é produto do patriarcado e por isso deve ser combatida – e por isso as que não incorrem na mesma são mais “livres”; por outro, acredita-se que os signos femininos não sofrem nenhum tipo de influência da sociedade machista. Assim, parece existir o nosso velho “8 ou 80” do controle versus escolha operando aqui. Ora pensamos que nossas escolhas são controladas pelo patriarcado e ora pensamos que, se podemos escolher, então somos livres.

Gostaria de ressaltar primeiro que, “ser livre” é algo muito particular de cada subjetividade. E que eu estou falando de uma posição ocidental, ou seja, da ideia de liberdade ocidental. Um exemplo muito bom que eu vi certa vez no tumblr, foi sobre o código de vestimenta de um certo local. De fato, para muitas mulheres certo código sempre foi coercivo e então o fato dele existir e ser mandatório configura uma violência. Para outras, a existência do código não faz diferença porque para elas se vestir conforme o código nunca configurou uma coerção, e então a experiência dessas não foi de violência. Nesse sentido, poderíamos abolir o código e provavelmente algumas mulheres continuariam a segui-lo. Decerto, o código é uma coerção/violência – isso não está em debate – porque ele obriga mulheres a ser vestir conforme um padrão. Mas a experiência dessas mulheres com o código pode ser diferente e nem todas podem se sentir oprimidas por ele.

É nesse sentido que o Feminismo Intersecional costuma dizer que a experiência de opressão machista é diferente para cada mulher, especialmente se adicionarmos interseções de opressão.

Poderíamos então dizer que as mulheres que não se sentem oprimidas pelo código o internalizaram de tal forma que não tem consciência de suas escolhas? Essa seria uma afirmação perigosa, porque 1) Estaríamos falando por essas mulheres a partir de uma experiência nossa (que entendemos o código como opressão) e 2) estaríamos retirando a agência delas e automaticamente as reificando[1], como se fossem robôs programados para serem controlados. No segundo caso nós retiramos a humanidade dessas mulheres e as tornamos um receptáculo do machismo. Isso é perigoso, porque ninguém é um papel em branco pronto para ser programado pelas ideologias sociais.

Contudo, o papel da ideologia constitui um forte elemento da construção do sujeito. É inegável a força que os discursos hegemônicos possuem sobre nós; sobre o que pensamos e como agimos.

Mas se a ideologia nos captura e se nossas subjetividades, como dizia Foucault, pertencem a regimes discursivos de poder, não há só captura, deve haver uma margem, um escape, as tais linhas de fuga e as resistências. Considero o próprio Feminismo como um exemplo disso. Como poderia existir Feminismo se fôssemos programadas para ser subservientes ao patriarcado em todo tempo ou espaço? Mas então se há captura, se a ideologia nos influencia e, se há margem de autonomia, se há escolha, então caímos no que Butler chama de paradoxo:

“Minha agência não consiste em negar essa condição de minha constituição. Se eu possuo qualquer agência, ela é propiciada pelo fato de que eu sou constituidx por um mundo social o qual nunca escolhi. O fato da minha agência ser violentamente dividida por um paradoxo não significa que ela seja impossível. Significa, apenas, que o paradoxo é a condição de sua possibilidade.”[2]

Para ela, o paradoxo é a condição de possibilidade da agência. Somos constituídos pela norma, ao mesmo tempo em que possuímos uma margem de escolha e nos esforçamos para viver modos de vida fora da norma (as tais linhas de fuga) e ela comenta isso logo em seguida:

“Isso resulta que o “eu” que eu sou, encontra-se ao mesmo tempo constituído por normas e dependente das mesmas, mas também se esforça para viver de modos que mantenham relações críticas e transformadoras para com as próprias normas.”[3] (grifos próprios).

Ressalto aqui que para Butler o sujeito é capaz de transformar as normas através das relações críticas que mantém com ela. Então, somos capazes de não só escapar às normas sociais ao mesmo tempo em que somos constituidxs por elas, mas também capazes de transformá-las.

Voltando ao começo do texto, para uma mulher trans* que foi designada homem ao nascer, a relação que ela geralmente tem (nós temos) com a feminilidade é uma relação muitas vezes de subversão. Enquanto muitas mulheres cis feministas lutam para escapar de estereótipos como, por exemplo, fazer as unhas, muitas mulheres trans* veem nesse ato, pequenas transgressões de gênero. Lembro-me até hoje quando pintei minha unha pela primeira vez: parecia coisa do outro mundo e tive que fazer escondido dos meus pais. Para nós, esses atos simples e estereotipados são atos transgressores porque nos sempre foram proibidos sob a pena da punição. Assim, o que pode ser uma coerção para muitas mulheres, nos foi – e é – algo subversivo, algo transgressor. De novo: a experiência que uma mulher tem com a opressão não é a mesma que outras têm com a opressão. Especialmente se estamos falando de mulheres trans*, cujas infâncias quase sempre foram marcadas por punições/coerções de gênero constantes.

Por fim, acredito que o feminismo deve incorrer em um tipo de apoio que englobe aquelas mulheres que desejam se libertar dos estereótipos de gênero, pois sentem que eles as oprimem e aquelas que se sentem bem com eles. Certamente, lutaremos por um mundo onde esses estereótipos não sejam o padrão (ou seja, não sejam estereótipos) e onde certos comportamentos não sejam mandatórios para muitas mulheres. Eu não acho que o feminismo deva parar de lutar contra os padrões de feminilidade impostos, mas deve entender que esses padrões podem não oprimir todas as mulheres igualmente da forma como imaginamos e que as mulheres que os escolherem têm agência para tal, e não devem ser consideradas mais ou menos livres – uma vez que liberdade, como dito, é um conceito subjetivo e muito pessoal.

Meu feminismo deseja empoderar escolhas dando uma dimensão de onde essas escolhas estão localizadas dentro do contexto social.


[1] coisificando

[2] BUTLER, Judith. Undoing Gender. Tradução Própria.

[3] Ibidem.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Maravilha de texto! As pessoas são muito mais que a reiteração/negação da norma… elas acabam escapando dela em maior ou menor grau e o fato de que haja tanto empenho na imposição dessa norma já é sintoma de sua falibilidade…Sabe, Hailymda, é mto bom ler textos como esse teu, me alivia a própria experiência enquanto mulher cis, ás vezes quase sinto culpa por ter meus cabelos longos, usar batom, saias, acredita? mas me dou conta de que, ai, que coisa mais moral cristã isso de ”culpa” e de que existem pessoas intrinsecamente ‘melhores’ que outras, sendo que estamos todas nesse mundo tentando sobreviver da maneira que julgamos ser mais possível. Enfim, meu feminismo também respeita o paradoxo ;) . Obrigada por compartilhar teu texto lindo <3

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  2. “Ressalto aqui que para Butler o sujeito é capaz de transformar as normas através das relações críticas que mantém com ela. Então, somos capazes de não só escapar às normas sociais ao mesmo tempo em que somos constituidxs por elas, mas também capazes de transformá-las.”

    Achei esse texto enriquecedor! Principalmente o trecho que citei, achei o ponto chave de toda a discussão.
    É uma das coisas que para mim, que estou ao poucos me iniciando em teorias feministas, tinha muita dúvida sobre como pensar. Eu que sou mulher cis me sinto especialmente oprimida pela padrão de depilação hoje em dia, mas não me sinto tão oprimida por exemplo quanto ao uso de maquiagem e pintar as unhas. Acredito que a construção dessa escolha por cosméticos se deu de uma maneira diferente em minha vida e, não tanto e só, por imposição da sociedade machista.

    Enfim, obrigada pelas reflexões =)

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  3. Excelente texto. Essa é uma questão muito importante para todas as mulheres.
    Existe ainda um desprezo enorme pelas questões de feminilidade. Por mais que a mulher feminina seja “bem vista” (talvez nem isso) socialmente, existe uma ridicularização do que quer que seja considerado feminino (exatamente pela inferiorização do próprio feminino), uma mulher que segue esse esse estereótipo é considerada fútil, estúpida, de mente vazia, unicamente por ser um comportamento relacionado unicamente a mulheres. De modo geral, a sociedade já vira os olhos automaticamente para o que quer que seja considerado feminino e o taxa dessas formas. Então, por mais que esse estereótipo seja uma amarra para muitas, para mim é incoerente um feminismo que queira policiar esse tipo de comportamento. A feminilidade já é desprezada por toda a cultura patriarcal (apesar deles desejarem exatamente esse estereótipo de mulher – o que, para mim, não se opõe: a sociedade deseja a mulher submissa e inferior ao homem, que para eles se dá na mulher que segue aquelas expectativas estereotipadas), não acredito que o feminismo devesse partilhar desse sentimento. A liberdade feminina para escolher seu caminho (isso inclui seu comportamento, suas escolhas, roupas, casar-se ou não, trabalhar fora ou ser dona de casa) deve ser apoiada pelo feminismo se feita por vontade própria. Isso equivale também às mulheres trans*, até pela questão transgressora ser inversa nesse ponto; e se uma mulher cis deseja seguir determinados comportamentos estereotipados porque sente vontade, ela deve, assim como a mulher trans*. Acredito que para mulheres trans* esse seja um ponto ainda mais delicado (me corrija se eu estiver enganada), como vi uma tirinha da Sasha (não consegui encontrar para linkar aqui, mas mostrava diferentes formas de uma mulher trans* se vestir – de modo mais ou menos feminino – e as reações a isso), pois há um julgamento para qualquer escolha de comportamento e que, normalmente, vem seguido de uma intensa transfobia (que se soma aos julgamentos diários sobre qualquer outra escolha).

    Abraços e muito amor.

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  4. Reflexão maravilhosa, parabéns!

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  5. O olho do observador e sua relação com as normas e as diferentes formas de enfrentamento e subversão. Parece tudo muito óbvio, mas eu nunca havia conseguido formular esse pensamento dessa forma. Esse debate é complicadíssimo e com sua elaboração eu consegui vislumbrar novos elementos para entender essas relações ultra complexas das mulheres e da sociedade como um todo com elementos denominados de constitutivos da “feminilidade”. De parabéns ;)

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  6. Pingback: Vamos pensar sobre feminismo e feminilidade? |

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