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Em 2014, por um feminismo ético

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No último dia do ano, após uma crise muito forte de dor no ciático (para quem viu meu drama no Facebook), não posso deixar de compartilhar meus desejos ativistas para 2014.

O que significa um feminismo ético?

Não estou falando aqui só de intersecionalidade, apesar que a meu ver existe um quê de ética quando pensamos em um feminismo intersecional. Me refiro à ética individual de pensarmos em como nossas ações afetam outras mulheres (e não só) que não compartilham as mesmas experiências de opressão que nós. Para isso, considero essenciais os pontos a seguir:

1)      O entendimento que a experiência das mulheres com o machismo é diversa e distinta, e não pode ser universalizada ou capturada em discursos prontos que não têm o intuito de aprofundar o olhar em tais distinções. Me refiro aqui a todas as frases de efeito que o feminismo utiliza, sem infelizmente se aprofundar nas particularidades de opressão que cada mulher vivencia. Somos diferentes, experienciamos machismo de forma diferente, porque nem todas as mulheres são o default universal que o feminismo corrente (mainstream) frequentemente (consciente ou inconscientemente) representa: mulheres brancas, cisgêneras, de classe média, sem deficiências, magras e heterossexuais.

2)      Ouvir quando certas mulheres que vivenciam uma opressão específica diferente da sua apontam preconceito em nossos discursos. Infelizmente esse ano foi marcado por uma miríade de feministas com certa plataforma que incorreram em racismo, transfobia e classismo e que, quando chamadas atenção, seu comportamento foi o de completamente desqualificar e silenciar as críticas, numa tentativa de varrer para debaixo do tapete suas ações. Isso tem sido frequente, mas a meu ver tem menos a ver com o feminismo estar se tornando “mais preconceituoso” do que com nós, mulheres marginalizadas do feminismo (as negras, as trans*, as pobres, com deficiência, gordas, as prostitutas, as homo ou bissexuais etc.), estarmos nos levantando contra essas agressões dentro do movimento. Muito se fala do “agressor”[1] machista, mas parecemos esquecer que para as pessoas negras, as brancas que incorrem em racismo também são “agressoras”. E isso inclui mulheres. O mesmo pode ser dito em relação às pessoas que mantêm um status de privilégio sob outras dentro de um certo sistema de opressão. O “agressor” não é só o homem cis machista que essa nova onda “misândrica” (sic) parece querer enquadrar. Somos TODXS agressorxs de alguém, nesse sentido, porque mantemos uma posição privilegiada em relação a outra pessoa. Ouvir uma pessoa marginalizada quando esta aponta um problema em nosso discurso é essencial se queremos um feminismo plural e que seja pautado pelos direitos humanos. Por isso eu sempre costumo dizer “qual é o feminismo que queremos?”

3)      Se desejamos um feminismo que se paute pelos direitos humanos, devemos entender que “direitos humanos” são para todxs. Ainda que socialmente saibamos que o machismo protege (quando não incentiva, com a cultura do estupro) a violência contra as mulheres, e que o Estado opera sob machismo institucionalizado, isso não pode ser desculpa para atropelarmos direitos humanos fundamentais. Estou me referindo aqui a certos feminismos punitivistas, que vêm sendo criticados por algumas colegas feministas criminalistas[2] que não só apontam o viés classista da punição, como a inutilidade da mesma. Além disso, um olhar mais preciso mostra como incentivar a lógica punitivista acaba por tabela prejudicando outras mulheres (pobres, principalmente), que sofrem revistas humilhantes em presídios e despendem tempo e dinheiro para visitar esses homens; sejam maridos, filhos, irmãos etc. Logo, não vejo sentido em estimular penas maiores que só irão ser aplicadas aos homens cis negros e pobres (maioria da população carcerária), que não irão melhorar ou regenerar esses homens e que de quebra ainda “levam junto” certas mulheres. Obviamente não defendo aqui o fim da punição contra a violência. É importante (inclusive simbolicamente) que hajam mecanismos de proteção para mulheres vítimas de violência, mas essa punição não pode ser a única resposta à questão da violência contra a mulher, visto que, como dito, não recupera o “agressor” e perpetua um ciclo de violência (a prisão é uma instituição que perpetua violência). Por fim, esse tópico também inclui as “polêmicas” denúncias de “agressores” promovidas por coletivos feministas que frequentemente publicam nome com foto, local de trabalho, local de estudo, endereço etc., (chegando até mesmo publicar RG e CPF!) com o intuito de “alertar” o meio sobre tal “agressor” promovendo muitas vezes um linchamento público que atropela direitos fundamentais.

4)      É urgente que a pauta sobre prostituição ganhe os debates feministas sem que haja o velho maniqueísmo “escolha versus falta da mesma”. No ponto 1 eu relembrei como nossas experiências com o machismo são diferentes, por isso precisamos parar de estender nossa experiência com a norma e com o machismo para outras mulheres. Se eu pessoalmente acho prostituição degradante e eu não o faria não quer dizer que todas as mulheres pensam (ou tenham que pensar) o mesmo. Eliminar a prostituição porque eu acho que é degradante para a mulher é falar por outras mulheres, especialmente falar pelas prostitutas. Essas mulheres têm voz e devemos ouvi-las. Mas para além de se discutir autonomia creio que todas as feministas que disputam esse tópico concordam que há necessidade de mecanismos sociais que promovam segurança para essas mulheres e a opção de deixar a profissão, caso desejado.

5)      Nos educar sobre a opressão dxs outrxs. Há uma certa alienação generalizada em relação a não procurarmos estudar sobre outras mulheres. Tenho visto o argumento do “academicismo” ser usado para alienar e criticar a educação através de leituras teóricas. Sem dúvida, a teoria é uma ferramenta e não é o fim do feminismo, mas embora eu defenda que para ser feminista não há necessidade de se debruçar horas sob as teorias, sem ferramentas não vamos muito longe. Há uma infinidade de informação lá fora e precisamos nos educar se queremos entender melhor outras mulheres e não repetir ideias estereotipadas ou mesmo preconceituosas. Novamente eu pergunto: “Qual é o feminismo que queremos?”.

Finalizo esses pequenos “votos” para 2014, desejando que possamos ter mais acesso a discussões proveitosas fora do Facebook. O FB tem se tornado um local inseguro para qualquer pessoa que deseje militar por uma sociedade melhor. O já conhecido mecanismo de denúncia do FB é extremamente falho para denúncias de postagens machistas, e tem sido usado, infelizmente, para feministas transfóbicas denunciar perfis de mulheres trans* se utilizando das políticas transfóbicas do FB de cobrar RG dessas mulheres para silenciá-las mediante críticas de transfobia no feminismo. Há mais de uma página que se intitula feminista que dissemina conteúdo altamente transfóbico, e não são raros os episódios racistas de outras páginas feministas famosas, como apontou Djamilla Ribeiro. Infelizmente, não vejo mais proveito na plataforma do FB para boas discussões. Inclusive, tentando colocar em prática outros meios de informação e discussão, há um curso sobre Transfeminismo saindo do forno (além do curso da minha querida colega Mari Moscou, que me convidou para falar sobre o tópico transfeminismo em um dos dias, confira aqui) e um curso sobre ética e feminismo.

Precisamos de um feminismo crítico para com a sociedade machista – sem dúvida, mas precisamos também urgentemente de um feminismo autocrítico. Porque sabemos que não somos perfeitas, que vamos errar – e que as chances de eu errar falando sobre uma experiência que não é a minha é muito maior. O feminismo é um movimento cheio de problemas e disputas, e por isso precisamos de ferramentas para nos auxiliar nessas críticas e precisamos, essencialmente, ouvir mulheres. Mulheres, no plural, porque o que fazemos o tempo todo é ouvir mulheres brancas, cisgêneras, heterossexuais, magras, sem deficiência e de classe média.

Feliz 2014


[1] Não gosto e nem endosso o termo “agressor”.

[2] Agradeço a minhas colegas feministas Camilla Magalhães o e Rô pelo maravilhoso insight nesse campo, pois minha visão estava tomada por ideias punitivistas e classistas nesse aspecto. Agradeço também a indicação (mesmo que indireta) do teórico criminalista Zaffaroni, o qual passei a ler em virtude do contato com as mesmas.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Hailey.

    Suas posições estão muito mais claras agora. Bonitas e fortes.

    Quando a conheci, era só briga e confusão no Facebook, no Ask, no Twitter e por aí vai. Não digo isso como se o problema fosse seu. Era o que eu via e podia ver pelas redes sociais. Com o tempo e paciência que pude ver – entre uma denúncia de transfobia e outra – relances e flashes desse texto que escreveu hoje.

    Sei que a transfobia banalizada pela sociedade atrapalhou muito. Mas quero lhe dizer que você está mais forte ao deixar a transfobia de lado e passar essas mensagens.

    Obrigada pelos bons ideiais. Me trouxeram esperança. Bom 2014.

    Beijo.

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    • Obrigada Leila! Na realidade talvez isso só tenha sido possível quando parei de dar murros em ponta de faca discutindo com feministas que claramente não desejam deixar de ser preconceituosas e possuem uma mentalidade bastante nociva. bjs!

      Responder
  2. Maria Cristina Martins

    Hailey, gostaria de parabenizá-la por reflexões tão lúcidas e pertinentes! Apesar de defender e lutar pelos direitos da mulher, seja ela cis ou trans*, não me sinto confortável com esse feminismo hostil, punitivo que assolou o Facebook. Vc descreveu muito bem os “sintomas” de uma parcela feminista que, ao invés de agregar, está contribuindo e muito para afastar potencias seguidoras. Feliz 2014! Um abraço!

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    • Obrigada Maria Cristina! Minha preocupação maior não é, sinceramente, se esse tipo de feminismo afasta seguidoras, mas sim que esse tipo de feminismo prejudica ativamente mulheres marginalizadas. Quando pensamos, por exemplo, que mulheres negras sofrem racismo socialmente e então têm contato com o feminismo que deveria ser um movimento para as empoderar e essas mulheres têm que lidar com o racismo de algumas das feministas mais vocais como Nádia Lapa, sinto que estamos falhando na construção de um feminismo que englobe todas.

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  3. Obrigada por esse texto, todos precisamos aprender sempre, é preciso mais amor e humildade para admitir falhas… quanto ao facebug, é triste mas infelizmente preciso admitir que sem ele eu não acessaria metade do conteúdo que aparece via timeline (talvez até esse texto), consequentemente perderia muita coisa incrível que aprendo com as pessoas que sigo, apesar de muitas falhas é preciso levar em conta que é muito popular e aproveitar isso. Feliz 2014, querida! Bjs

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    • Nem eu Lia, talvez o FB seja legal mesmo para divulgação/acesso de conteúdo, mas não para discutirmos lá, afinal estamos discutindo aqui nessa caixa de comentários e não em algum grupo ou página do FB ;)
      É a isso que me referi. beijos, ótimo 2014!

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  4. Hailey, que honra enorme receber uma menção em um texto tão brilhante. Parabéns!!! Fiquei tão feliz que tomei a liberdade de lhe enviar uma mensagem no FB, espero que não seja inconveniente. Um abraço!!!

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