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Dos nossos pequenos luxos: Mijar e cagar

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[Aviso de conteúdo: esse texto usa termos potencialmente desconfortáveis para se referir a pessoas trans* como recurso irônico].

De Salvador a São Paulo, mulheres trans* distintas sofrem constrangimentos similares quando tentam usar banheiros públicos.

Qual a relação da travesti que tenta usar o banheiro no Shopping Barra, em Salvador, e as mulheres trans* que fazem o mesmo no Shopping Center 3 em São Paulo? A transfobia descarada que previne que possamos fazer nossas necessidades básicas e nos retira da categoria de humanos.

O(s) banheiro(s) segue como dispositivo normalizador de gênero, lócus da reificação do(s) gênero(s), reprodutor da aura que determina os gêneros binários como rígidos opostos e incompatíveis. A polícia dos gêneros normais, que fiscaliza nossos genitais e condutas, opera prontamente quando chamada pelos ‘cidadãos de bem’ preocupados com o bem-estar da criança inexistente.

Os seguranças, como sempre, servem ao(s) grupo(s) dominantes – às pessoas cisgêneras pagadoras de impostos e respeitadoras das normas de gênero, e que por isso se acham merecedoras de uma paisagem livre dessa gente “nem homem e nem mulher”, essEs taradOs, desviadOS, gays, que ousam reivindicar uma identidade de gênero diferente do que a natureza lhes concedeu.

Com isso, passam muito bem seu recado: nosso lugar não é nos espaços públicos, muito menos os de classe média. É na noite, nas ruas, subservientes ao prazer dos homens cis héteros que nos usam como objetos e depois descartam. Nosso lugar é nos consultórios especializados, sob o olhar dxs médicxs, xs doutorxs da normalidade que vão nos curar dessa doença que é o “transexualismo” (termo muito sofisticado para esses gays que acham que podem vir aqui no meu espaço sujar e contaminar minha visão); dessa doença de não sentir compatibilidade entre o corpo (e o tratamento advindo dos signos que esse corpo produz socialmente) e gênero designado. Nosso lugar é em qualquer outro, contanto que seja fora da visão da gente de bem.

Doença essa contagiosa, cuja transmissão se dá através dos banheiro (e outros locais) públicos através da retina. Basta olhar e você vira travesti. É comprovado cientificamente. Eu vi na TV. Estudei na faculdade. Meu amigo psicólogo me contou. Se você tiver contato físico então, você e sua descendência toda serão castigadxs: todo mundo traveco.

Nosso crime – não prescrito na lesgislação – foi o de reivindicar um corpo diferente. Uma vivência outra. Foi ceder aos nossos desejos de uma vida feliz, num gênero e no corpo que julgamos coerente.

Mijar e cagar nos espaços públicos se torna, então, um desafio. Não podemos cagar, nem mijar. Entramos rapidinho no banheiro para que ninguém nos veja, torcendo para que dessa vez não aconteça nada, depois de segurarmos a vontade o dia inteiro.

Ir ao banheiro é uma tortura. Ao mesmo tempo, um ato político, uma transgressão.

Mijar e cagar. Direitos básicos. Para nós, um luxo. Uma ostentação. Uma ousadia.

Você foi ao banheiro hoje e ninguém te incomodou? Sinta-se privilegiadx.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. texto perfeito! estou repassando.

    “Com isso, passam muito bem seu recado: nosso lugar não é nos espaços públicos, muito menos os de classe média. É na noite, nas ruas, subservientes ao prazer dos homens cis héteros que nos usam como objetos e depois descartam.”

    Responder
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  5. Um tapa na cara…

    Responder

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