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Carta aberta de uma mulher trans* e bissexual transfeminista à militância auto identificada como gay e/ou LGBT

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Prezada militância auto identificada como gay e/ou LGBT.

Por muitos anos, nós pessoas trans* (transexuais, travestis, transgêneros e/ou outras identidades) fizemos e fazemos parte do movimento chamado e visto socialmente como “LGBT”. Lutamos ao lado de nossxs colegas gays e lésbicas, pela emancipação das sexualidades desviadas, do amor proibido, do sexo sujo, das relações pecaminosas. Nós mesmas, mulheres trans*, somos até hoje vistas como homens cis[1] gays afeminados que se vestem de mulher ocasionalmente[2]. Ainda somos vistas, em grande parte, como homens gays ardilosos que manipulam e iludem a percepção dos homens cis héteros – pobres coitados – que caem em nossas teias ilusórias de gênero. Por muito tempo, não havia distinção de quem era mulher trans* e de quem era homem cis gay. Então, a medicina, através do biopoder – aquela mesma medicina que patologizou a homossexualidade – separou a mesma das questões da transexualidade, despatologizando a primeira e patologizando a segunda, na mesma revisão do DSM[3]. Como bem lembra a socióloga Berenice Bento, a patologização da transexualidade figurou um giro de 360º como a repatologização da homossexualidade agora na forma da patologização do gênero em si, atrelada a uma ideia cisgênera e heteronormativa de corpos e de expressões.

Isso significa que reconheço as similaridades de nossas identidades dentro de um contexto histórico de opressão e de luta. Os crimes transfóbicos, cujas vítimas são majoritariamente travestis, possuem similaridades em relação aos crimes homofóbicos contra homens cis gays afeminados. Justamente por isso, esse fato leva à primeira justificativa dessa carta: não há luta anti-homofobia que não englobe a luta anti-machismo. O ódio que leva muitos gays afeminados a serem assassinados anda de mãos dadas com o feminicídio: o ódio contra tudo que seja feminino, também chamado de misoginia e/ou femmefobia. Em nossa sociedade, a masculinidade padrão é venerada, esperada e aceita, enquanto as feminilidades são vistas como inferiores, sinais de fraqueza e passividade. Os insultos homofóbicos quase sempre são também machistas, pois visam desqualificar certos homens diante de outros por aqueles serem “menos homens” em relação a estes, sendo considerados, por isso, mulheres. Dessa forma, o movimento auto identificado gay e LGBT deve ser também um movimento feminista.

É imprescindível que todxs da militância auto identificada como gay e/ou LGBT, promovam ações feministas para combater a ideia de uma única masculinidade padrão, e necessitam urgentemente problematizar a inferiorização que homens cis gays afeminados possuem dentro da militância.

O segundo ponto dessa carta, é a escrachada transfobia dentro da militância, a qual certos teóricos cegos pela arrogância parecem ignorar. Diariamente, somos desqualificadas por muitos gays e lésbicas, ridicularizadas e questionadas por sermos trans* e nossos corpos são considerados abertos ao escrutínio público. Homens trans* são considerados “lésbicas masculinas” e mulheres trans* são consideradas “homens femininos”. Todo tipo de pergunta invasiva sobre nossos corpos/genitais é feita. Além disso, movimento auto identificado como gay/LGBT no geral não tem aceito o uso e visibilidade do termo “transfobia”, embora seja sabido que majoritariamente os assassinatos “LGBT” são na realidade de “T’s”, conforme inclusive os dados do próprio GGB. Mais ainda, o movimento também tem apoiado, em sua maioria, a patologização da transexualidade. Assim como no passado, quando a patologização da homossexualidade se baseou mais em políticas homofóbicas e menos em “ciência”, vemos o mesmo processo ocorrer com a transexualidade. As ciências sociais/antropologia têm se dedicado amplamente a descontruir as ideias pseudocientíficas em relação à transexualidade[4]. Não há base científica para manter a transexualidade em um documento que categoriza doenças mentais (DSM). Contudo, vejo grande parte da militância apoiar ou se abster em relação a esse estigma, outorgados, por vezes, pelo título de psicólogxs. Novamente lembro que, no passado, a homossexualidade foi amplamente considerada uma doença mental passível de tratamento. Aliás, até hoje é possível encontrar clínicas religiosas que prometem a “cura” da homossexualidade. Sabemos que tal ideia é ridícula e preconceituosa – não há cura para uma expressão sexual legítima, pois se a heterossexualidade é uma sexualidade legítima assim também o é a homossexualidade. Dito isso, a mesma premissa se aplica à transexualidade: não há cura para uma expressão de gênero legítima. Nossos corpos não logram ser mais do que são: corpos. Um amontoado de carne e ossos, onde não há o que se investigar, não há uma verdade oculta do sexo verdadeiro que pode ser extraída dos genitais, cromossomos, estrutura óssea, cérebro e etc., pois existe uma infinidade de expressões para além do feminino e masculino padrão que conhecemos, e que a “verdade” biológica socialmente aceita não consegue dar conta.

Reivindicamos, assim, a liberdade de ser quem somos, de viver como queremos, de modificarmos nossos corpos livremente sem o estigma da patologia.

O terceiro e último ponto diz respeito ao apagamento massivo da identidade bissexual dentro do movimento. Tenho visto, com muito pesar e indignação, teóricos gays afirmando que a bissexualidade não existe e/ou minimizando sua importância enquanto categoria de sexualidade. Há preconceito dentro das comunidades gay e lésbica contra pessoas bissexuais: somos vistas como pessoas “em cima do muro”, “confusas”, “no armário” “gays enrustidos” e no caso de mulheres bissexuais, “traidoras do movimento”, “dormem com o inimigo” e assim por diante. Nós bissexuais não recebemos credibilidade nenhuma por nossa sexualidade: pois para todxs ela não existe, é uma fase, um engano: logo nos assumiremos ou heterossexuais ou homossexuais. Um “passeio entre os gêneros”, diriam certas feministas transfóbicas, só que um passeio da ordem da sexualidade e não do gênero. A bifobia corre livremente. As pessoas bissexuais permanecem, assim, apenas uma letra na sigla. Nada mais.

Por fim, gostaria de pedir que nos ouçam. Ouçam nossas experiências, nossas vivências. Se eduquem sobre questões trans*, leiam nossos relatos e participem de nossos grupos. Parem de fazer militância igualando expressões sexuais com expressões de gênero. Vejo constantemente cartazes de visibilidade trans* misturando identidade de gênero com sexualidade. Como dito no começo, a ideia de que somos na realidade homens gays e que transexualidade tem a ver com sexualidade (não obstante o próprio termo “transexualidade” depor contra nós) é amplamente divulgada e internalizada socialmente. Somos mulheres, homens e outrxs homossexuais, heterossexuais, bissexuais, pansexuais etc. Nossa sexualidade independe de nosso gênero. Afinal, se é assim com pessoas cisgêneras porque haveria de ser diferente com pessoas trans*?

Nós pessoas trans* sofremos todo tipo de falta de acesso; à saúde, emprego e educação. Somos excluídas físico e simbolicamente dos espaços comuns sociais. Precisamos que nos ouçam, que nos apoiem, que nos empoderem. Precisamos de uma militância intersecional. Uma militância que nos respeite enquanto sujeitos agentes de nossos corpos, de nossas identidades.


[1] O termo cis é diminutivo de cisgênero que visa identificar as pessoas que não são trans*. Para maiores informações cf. aqui.

[2] Essa visão, inclusive, é compartilhada por muitas feministas transfóbica dentro do movimento.

[3] Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

[4] Cf. alguns teóricxs brasileiros e estrangeiros como Berenice Bento, Paula Sandrine Machado, Mauro Cabral, B. Preciado, Judith Butler, Julia Serano, Riki Wilchins, Patrick Califia, Susan Stryker, Jaqueline Gomes de Jesus, Miquel Missé, Jorge Leite Júnior, entre outrxs.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Hailey, pare! Você vai causar uma overdose de lucidez! rs. Brincadeiras à parte, nunca li na militância um texto tão claro, intelectualmente honesto e verdadeiramente interseccional como este. E um texto sem viés nem preconceito, reconhecendo diversas facetas da complexa realidade. Parabéns, de uma lucidez ímpar!

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  2. Menina achei divino seu texto
    Muito bom sou novo nesse “role de militância”
    Seu texto foi bem esclarecedor pra mim.
    PS: continue assim! < 3

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  3. Brilhante texto, crítica e pedido de ajuda! Realmente cientistas querem padronizar algo que as pseudos ciências (psiquiatria e psicologia) sequer abordam, tornando-se um bando de tabuladores e abandonando a ética, o compromisso social, para inventarem bloqueios, neuras e idiotices que os tornam (estes pseudos cientistas) nos seres mais irrelevantes do planeta!
    De um pai gay, ateu e orgulhoso de ter rompido incontáveis bloqueios sociais e religiosos.
    Belíssima e esclarecedora tua batalha!

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  4. Agradeço, Hailey. Agradeço muito mesmo. Me alivia ver pessoas com essa clareza e desenvoltura para se expressar dentro do movimento, é disso que precisamos. Isso, à parte da crise de identidade que estou vivendo… seu blog me ajuda muito. Agradeço, novamente.

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