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Descentrando o sujeito do feminismo; Desuniversalizando as mulheres: Considerações sobre feminismo e visibilidade trans*

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O que faz com que nos encontremos na categoria chamada “mulher”, que é acionada sempre que precisamos demandar direitos básicos? O que nos une? Qual é o elemento essencial (caso exista) pertencente a todas nós, que nos faz identificarmos com essa categoria?

Nessa semana da visibilidade trans*, gostaria de focar na questão da categorização universal da mulher, crítica tão cara ao feminismo e um problema essencial para algumas mulheres: mulheres trans* – transexuais, travestis, transgênero e/ou outrxs.

Por muito tempo, se lançou mão da biologia em seu modelo dimórfico de pensar os corpos, para classificar os sujeitos em “2 sexos”. A ideia de 2 sexos remonta, no entanto, do final do séc XVIII endossado fortemente pelo nascimento da medicina moderna no fim do XIX e começo do XX. Lá, também nasce a “transexualidade” como categoria clínica. É curioso notar que, ao mesmo tempo que o modelo de corpo se binarizou, o trânsito de gênero se tornou um problema de ordem da saúde pública, mais especificamente mental. Decorre daí que em uma sociedade não baseada na ideia de “2 sexos” distintos, dicotômicos e opostos, o trânsito de gênero não possui o mesmo estigma psiquiátrico que em nossa sociedade. Isso não previne outros problemas, mas o que quero dizer é que a ideia da transexualidade como um transtorno mental é uma construção da medicina moderna apoiada numa concepção binarista de corpo. Não obstante a própria biologia se enrolar quando encontramos um índice alto de pessoas intersexo, desmontando o mito da exceção, continua-se a manter a transexualidade como doença mental, transtorno e continua-se a considerar que corpos com configurações “naturais” de “sexo” são mais legítimos do que outros.

O que é natural? Ou melhor, nossa percepção do natural é uma ferramenta segura para filtrar as coisas do mundo?

Certa vez, muitos anos atrás quando fiz um curso de Introdução à Epistemologia, lembro de um texto do Platão onde ele fazia referência à percepção como um elemento inseguro de categorização das coisas do mundo. Quem está familiarizado com Platão deve lembrar do “remo quebrado na água” e o “navio que parecia pequeno ao longe”. São princípios básicos quando questionamos a percepção, e são a base para a Semiótica. Nossa percepção é mediada, é contextual/histórica. Se juntarmos isso ao contexto histórico acima, temos então uma primeira tese sobre a (não) legitimidade de todos os corpos.

Por que o elemento pênis está associado com homem e masculinidade? Por que o elemento vagina está associado com mulher e feminilidade? De onde vem essa ideia de que há uma essência de gênero atrelada ao sexo que faz sermos “homens” ou “mulheres”? E, principalmente, se essa essência é universal, porque existem pessoas que recusam?

A quem interessa manter uma rígida distinção binária entre os “sexos”? Não são essas que criam estereótipos negativos? Homem não chora; mulher sim. Homem não cozinha; mulher sim. Homem é racional; mulher emotiva. Etc.

Se o machismo é social, se a ideia das mulheres como inferiores aos homens é uma construção perversa de uma sociedade com um sistema de sexo/gênero, se concordamos que “ser mulher” é algo subjetivo e constantemente capturado pelos discursos machistas, se entendemos que o tempo todo somos definidas em relação ao Outro, considerado mais legítimo, porque ainda não superamos a ideia transfóbica de mulheres trans* como um engodo, uma farsa, algo ilegítimo? Ora, se ser mulher deve ser exaltado, empoderado, se nós mulheres temos de nos emancipar e empoderar, se a mulheridade é algo a ser celebrado, porque há certos feminismos que excluem mulheres trans*? Porque recorrem ao discurso da essência, tão prejudicial para as mulheres como nos mostrou a história (uma rápida remissão lembrará como mulheres eram consideradas essencialmente histéricas, fisicamente e intelectualmente inferiores, etc. – aliás não é preciso nenhuma remissão, basta uma googleada em artigos “científicos” atuais).

Mas eu vou mais além: por que a ideia de essência é algo indispensável no feminismo, e consequentemente para as mulheres? Se minha colega mulher está sofrendo machismo, interessa se ela tem XX ou XY (ou várias outras configurações cromossômicas), pênis ou vagina, se nasceu assim ou assado? Aliás mesmo se mulheres trans* consideradas homens por um feminismo transfóbico estivessem sofrendo machismo, ainda assim não seriam sujeitos passíveis de defesa? Por que defendemos umas e nos omitimos com outras? E se homens e mulheres reproduzem machismo, como sabemos, porque é diferente quando uma mulher trans* reproduz machismo, porque ela também não é vítima como mulheres cisgêneras (não-trans*)?

Essa diferenciação decorrente da ideia de essência é a base para a transfobia. É a base para o cissexismo. É a base para a ideia de que certas mulheres merecem mais empatia e mais defesa do que outras. Nossos corpos e identidades são desumanizados e destituídos da categoria mulher, porque a tal “essência” diz que não somos. E como tal, não somos objetos de empatia. Enquanto isso, além de sofremos o machismo cotidiano direcionado a todas as mulheres, justamente por causa dessa mesma ideia de essência defendida por certos feminismos, sofremos transfobia. Somos assassinadas por sermos “falsas mulheres”. Morremos por falharmos no “ser mulher” machista reforçado justamente por esses certos feminismos. Se nos depilamos, nos maquiamos, usamos vestidos ou outros símbolos considerados femininos, somos acusadas de reforçamos machismo; se não fazemos nada disso, então somos acusadas de não estarmos tentando o suficiente “ser mulher” e, logo, isso “prova” que somos homens. Nunca vencemos o jogo da cisnorma.

A universalização da categoria de mulher só é útil quando pensamos em demandas políticas. Para eu sentir empatia pela colega, ela não precisa ter a configuração morfológica igual a minha, muito menos ter elementos identitários iguais aos meus. Basta estar sofrendo machismo (e o foco aqui em machismo não exclui, naturalmente, a defesa contra outras discriminações). Essa é a tal da sororidade que falta no feminismo.

Não somos iguais. Somos diferentes. E sofremos diferentes discriminações. A única coisa que nos une é o fato de todas nos identificarmos como mulheres. Reconhecer que somos diferentes em nada prejudica a luta, pelo contrário: fortalece.  Precisamos descentrar o sujeito do feminismo como a mulher universal que mantêm laços essenciais com outras mulheres. Desuniversalizar a categoria irá evidenciar nossas muitas diferenças; e diferenças não nos enfraquecem, pelo contrário as diferenças é o que faz sermos únicas, é o que concede a complexidade ao “ser mulher”, caso contrário corremos o risco de cairmos no machismo do “mulheres-são-todas-iguais”. Diferenças devem ser celebradas e não silenciadas.

Por fim, lembro aqui que quando elegemos um modelo de uma mulher como universal, necessariamente esse modelo é construído com base em exclusão de outras. E essas outras frequentemente costumam ser mulheres marginalizadas: mulheres negras, trans*, não-heterossexuais, pobres, gordas, com deficiências etc.

Nessa semana da visibilidade trans*, eu quero celebrar nossas diferenças. Quero lembrar que somos mulheres – diferentes mulheres – mas somos todas mulheres. Nossas vivências são distintas, nossas experiências divergentes. Não somos iguais. Não somos universais. Não partimos de um mesmo centro. Somos mulheres.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. adoro seus textos. SOU BISSEXUAL, estou casada com outra mulher. Sou professora, e é sempre um desafio a conversa com meus pares a respeito da diversidade. Parabéns, vc escreve muito bem. E seus textos são muito pertinentes.

    Responder
  2. Tnia Rosa Ferreira

    Para resumir tudo isto que foi escrito neste texto pertinente: “não existe mulher existem mulheres”

    Responder

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