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Terrorismo cissexista, Transeugenia e expulsão simbólica de pessoas trans* de espaços feministas

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“Onde estão os sujeitos que transitam entre os gêneros ou que reivindicam legalmente a passagem de um gênero para outro? Paulatinamente começam a desaparecer da vida pública para serem encontrados nos compêndios de medicina e nos espaços confessionais das clínicas. O sistema binário (masculino versus feminino) produz e reproduz a ideia de que o gênero reflete, espelha o sexo e que todas as outras esferas constitutivas dos sujeitos estão amarradas a essa determinação inicial: a natureza constrói a sexualidade e posiciona os corpos de acordo com as supostas disposições naturais.” Berenice Bento – O que é Transexualidade.

Nos confins das clínicas, nas ruas escuras, nos telemarketings, nos salões de cabeleireiro, nas palestras das pessoas Antropólogas famosas, servindo de “campo”; é lá encontraremos as pessoas trans*: nos espaços sociais que nos são reservados: espaços de análise/estudo, espaços clínicos, espaços onde não somos visíveis aos olhos das “pessoas de bem”.

Desde que o Transfeminismo ganhou força no país, cresce um forte sentimento anti-trans* dentro dos espaços feministas da internet, principalmente do FB. Malabarismos teóricos são feitos para justificar a exclusão de mulheres trans* dos espaços das “mulheres nascidas mulheres” ou “fêmeas”: surgem os velhos argumentos da socialização robótica, ecos de um projeto falido liderado pelo Dr. Money cuja prática custou a vida de uma pessoa intersexo (cf. David Reimer no google). Quando não evocam a falsa socialização universal das mulheres cisgêneras, evocam os argumentos biológicos já conhecidos pelas feministas que lidam com a “ciência” machista, a qual direciona seus esforços para condenar a mulher ao papel de provedora através da essencialização do útero, ou à imagem de vaginas ambulantes (o termo pejorativo e misógino “depósito de porra” ilustra bem o perigo desse tipo de abordagem). Há formas de abordar biologia sem cairmos em essencialismos perigosos, e há formas de abordarmos teoria social sem cairmos em determinismos sociais. O ponto principal não é a teoria, pois quaisquer que sejam as premissas teóricas, distorcem-nas para servir-lhes como embasamento de uma teoria geral da mulher que não inclui mulheres trans*. E, ainda que muitas feministas (radicais) digam com todas as letras que o feminismo não deve incluir pessoas trans*, recusam o termo TERF (trans exclusionary radical feminism [feminismo radical trans-excludente]), cunhado por uma colega feminista radical, inclusive. Algumas ainda dizem que não teriam em sua identificação feminista (feminista radical) nenhum “macho” (referindo-se ao trans exclusionary[TE] na frente do feminista radical [RF]).

Não consigo explicar porque tanto ódio e aversão. Prefiro citar Julia Serano:

“Nenhum tipo de qualificação deveria ser imposta no termo “mulher trans” com base na capacidade de uma pessoa em “passar” como mulher, nos seus níveis hormonais ou na configuração de seus genitais – até porque, é um sexismo óbvio reduzir qualquer mulher (trans ou outras) somente às suas partes corporais, ou exigir que ela viva de acordo com certos ideais ditados socialmente no que diz respeito à aparência.” Julia Serano – Whipping Girl. Tradução Hailey Kaas.

A expulsão simbólica das mulheres trans* de grupos feministas tem decorrido do Terrorismo Cissexista, como bem colocou um colega. Advoga-se ativamente pela nossa expulsão com argumentos considerados legítimos e “não-transfóbicos”, distorcendo teorias para servir a fins de uma eugenia trans*. Quando expostas, essas feministas se colocam no papel de vítimas incapazes de reproduzir opressão. Usam feminismo e sua própria condição de mulher como escudo para se desresponsabilizarem e, consequentemente, legitimar seu projeto de transeugenia nos espaços feministas. Reproduzem aí a ideia de mulher vítima passiva e sem agência/controle dos fenômenos sociais. A assepsia social realizada/advogada por essas feministas é plenamente justificável sob o pretexto de que somos, na realidade, homens enganando o movimento para nos apropriarmos do mesmo. Para essas feministas, transfobia existe na forma de violência direta (física/assassinato) cometida por homens cis “patriarcais”. Contudo, ignoram que são agentes no referido processo de assepsia social, abrindo o caminho através do terrorismo cissexista para que seus colegas homens transfóbicos “terminem o serviço”. Nossa morte começa, então, já bem antes dos esquartejamentos ou fuzilamentos.

Nesse ponto, devo dizer que há uma divisão machista do projeto de transeugenia: as mulheres operam em sua maioria discursivamente, convencendo suas interlocutoras (em geral outras feministas) que somos “homens perigosos” “estupradores” “pedófilos” e afins, caracterizando nossa tão sabida política de extermínio social “bandido bom é bandido morto” (se somos estupradores, então devemos morrer), corroborado por um feminismo de/para mulheres direitas – aquelas merecedoras de empatia, as “fêmeas” (brancas); enquanto os homens dão conta de realizar os assassinatos, sujando suas mãos no trabalho físico que essas mulheres não têm coragem de externalizar. Um fornece a justificativa do extermínio e outro trata de realiza-lo em vias práticas. Mesmo quando as “vias de fato” não chegam a nós, é possível notar como há a promoção do mesmo terrorismo a fim de nos levar indiretamente ao suicídio. A práxis do terrorismo cissexista é, assim, incorporado por parte do feminismo.

Nem tudo é ruim:

Seria injusto terminar esse texto falando sobre uma parte do feminismo que, embora pequena, seja muito vocal na demanda de nosso extermínio. Nesses últimos anos de ativismo encontrei muitos grupos de feministas, especialmente de mulheres negras, que acolheram mulheres trans* e compraram nossa briga por inclusão. Há diversos coletivos espalhados pelos estados do Brasil que são empáticas em relação às mulheres trans*. Se eu fosse citar nomes, certamente deixaria alguém de fora. Com isso, há esperança no fim do túnel e estou positiva que resistiremos com a soma de nossas colegas feministas. Porém, precisamos urgentemente denunciar as práticas transeugênicas e combater essa assepsia social realizada por poucas feministas influentes. Não podemos nos calar e deixar que o ódio manche nosso feminismo que deveria ser – sempre – um espaço de inclusão e não exclusão. Convido a todas as pessoas – cis e trans* – a denunciarem e não se calarem quando virem algum comportamento desse tipo.

Não me calo; Não nos calaremos: pessoas trans* de todo o mundo uni-vos para combater nossa própria extinção.

Abaixo ao Terrorismo Cissexista!

P.S Diálogo e postura educativa nós temos com pessoas ignorantes, refiro-me aqui a pessoas que sabem muito bem que estão fazendo e objetivamente pedem nossa exclusão.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Poxa Hailey… que merda isso.

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