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Breve guia sobre criação e gestão de espaços seguros

Publicado em

[Aviso de conteúdo: esse texto usa termos potencialmente desconfortáveis para algumas pessoas, como exemplos de ofensas].

Antes de mais nada, devo dizer que esse texto não se quer uma cartilha que deve ser seguida à risca, muito menos se quer um material definitivo sobre o tema segurança e espaços seguros. Esse texto surgiu da minha inquietação tanto como participante de espaços que se pretendiam seguros, mas que falharam em determinadas circunstâncias, quanto da minha experiência como administradora de vários espaços na internet.

Primeiramente, devo dizer que espaços seguros não existem. Embora minha afirmação pareça díspar com o título (e o propósito) desse texto, o que quero dizer é: não há como criar um ambiente 100% seguro para todas as pessoas evolvidas, sempre. Mas isso não quer dizer que nós não vamos tentar o máximo possível fazê-lo!

Acho importante pontuar isso, para não nos iludirmos com idealismos fadados ao fracasso no que diz respeito à criação de espaços seguros, ao mesmo tempo em que devemos fazer o nosso máximo para que os espaços que criamos/gerimos sejam seguros.

Por gerir, eu quero dizer toda ação de moderação, facilitação, controle, e/ou similar que uma pessoa possa exercer em um grupo. Eu não acredito na horizontalidade de grupos – pelo menos não na “pureza” dessa horizontalidade.  Acredito que de uma forma ou de outra, eventualmente, sempre haverá aquelxs que dominarão os espaços consciente ou inconscientemente. Em minha opinião, alguns espaços que se denominam horizontais, mais pela inexperiência e idealismo (em relação à horizontalidade) do que pela horizontalidade em si, permitem uma miríade de violências frequentes que não são enfrentadas e que são por vezes até silenciadas.

Dito isso, eu escrevi algumas ideias/passos que eu busco e procuro utilizar na gestão dos espaços:

1)    Você percebe, como participante ou como gestor/x, que o espaço consiste de somente (ou em sua maioria) de pessoas ativistas/de esquerda/militantes/minorias etc.?

Essas pessoas não irão garantir a segurança do grupo, contudo, se o ambiente reúne – por acreditar em um tipo democracia onde todxs têm voz (inclusive para oprimir) – pessoas reacionárias, fundamentalistas e afins, isso trabalha para transformar o espaço em um lugar hostil e cheio de opiniões preconceituosas contrárias ao objetivo/tema do grupo. Se já sabemos que determinadas pessoas pensam determinadas coisas (como, por exemplo, quem é contra o aborto estar em um espaço feminista) não há porque mantermos esse tipo de pessoa no ambiente, pois o argumento de uma suposta democracia não pode sobrepor à segurança de minorias que cotidianamente são violentadas em outros espaços. Lembre-se: seu espaço se quer seguro e é para/por pessoas marginalizadas.

2)    Sendo todas pessoas ativistas, essas pessoas estão interessadas no tema do grupo, em se educar sobre sua própria militância e, inclusive, a de outras minorias?

Eu acredito no educar-se sempre, em todos os assuntos, especialmente se temos plataforma na internet (ou fora dela) para veicularmos nossas opiniões. Precisamos pensar sempre no melhor, para melhor, com o melhor. Isso quer dizer que como participante de um espaço de militância negra, por exemplo, é imprescindível nos educarmos sobre questões da identidade negra. Porque somos responsáveis por tudo o que veiculamos, desde a conversa no bar até aquela entrevista famosa na mídia. Todos os nossos discursos produzem efeitos, e queremos que esses efeitos sejam positivos, certo? Quando vemos – como gestor/x(s) – que existem participantes pouco interessados no tema do grupo, que não participam (e não participam nem passivamente, como leitorxs), não constroem nada de fato, isso é um sinal que essa pessoa não deveria estar nesse espaço. Se a pessoa não se interessa pela sua luta, dificilmente irá se importar com você e sua identidade enquanto pessoa marginalizada.

3)    Uma pessoa oprimida usa sua própria opressão para oprimir outrxs?

Esse é o ponto mais importante e também o mais difícil. Como identificar? Como lidar? Bom, minha experiência é que: não há como manter, sob hipótese alguma, pessoas que estejam ofendendo outras mesmo que o grupo represente a identidade dessa pessoa. Já removi várias pessoas trans* do grupo transfeminismo por incorrerem em racismo, machismo, classismo e inclusive transfobia. Espaços seguros não podem dialogar com pessoas que usam de sua própria condição para desqualificar outras. Lembre-se: manter uma pessoa de uma identidade marginalizada no grupo a custo da segurança de outro grupo marginalizado é hierarquizar opressões.

3.1) Essa pessoa que está oprimindo outras, tem uma receptividade em relação a eventuais críticas, seu discurso está indo em direção à ignorância ou em direção à violência?

Quer dizer: Você percebe que a pessoa está ali em uma posição destrutiva, com argumentos violentos e premissas preconceituosas, ou ela “escorregou”, falou bobagem, porém por pura ignorância? Isso é importante de se perceber. Exemplos em espaços feministas são clássicos: Se um homem chega num tópico com argumentos desqualificadores, usando termos já reconhecidos no meio feminista (como “feminazi”, por ex.), já podemos perceber que o comportamento de tal pessoa não parte de ignorância e sim de violência. A pessoa não quer construir e sim destruir. Logo, deve ser removida e suas mensagens apagadas. O mesmo ocorre com outras pessoas militantes (incluindo aí mulheres) que incorrem em racismos, transfobias, classismos, capacitismos, gordofobias, machismos e afins. O exemplo do homem se resume pela frequência, mas não nos esqueçamos de que infelizmente há feministas transfóbicas que aparecem nos espaços (trans)feministas para desqualificar.  Um espaço seguro feminista não deve eleger em primeiro lugar o status feminista e nem de mulher da pessoa (seja cis ou trans*), deve levar em conta o que essa pessoa está dizendo e se está ofendendo outra minoria.  A ação sempre deve ser analisada, caso contrário estaremos sob o risco de atenuar certas violências em prol de uma suposta união que, na prática, não existe. O espaço deve ser seguro para todxs, e não só para algumas pessoas que julgamos mais merecedoras do que outras.

4)    O grupo é aberto, fechado ou secreto (no FB)? Controle de quem entra no grupo é essencial.

Controlar quem entra no grupo é bem trabalhoso, requer paciência e atenção. Mesmo no grupo transfeminismo com certeza (e sabemos) existem pessoas que agem de má-fé e tiram PS (print screen – capturas de tela) de relatos pessoais e tópicos específicos para postar em outros espaços. Esse tipo de ação coloca em risco a vida dxs participantes, especialmente se forem trans*, pois estamos falando de pessoas que frequentemente tem de esconder da sociedade que são trans* para não serem expulsas de casa ou perderem o emprego, até então conseguirem certa independência para se assumirem livremente. Isso ocorre principalmente com adolescentes trans*. Infelizmente, existem certas feministas (transfóbicas) e grupos masculinistas que defendem como modus operandi ativista vazar informações pessoais de pessoas trans*, chegando ao ponto de entrar em contato com os pais/empregadores e revelar o status trans* da pessoa. Não preciso repetir que isso coloca a vida da pessoa em risco, como eu disse acima. Dito isso, é preciso fazer um trabalho cuidadoso que inclusive envolve observar o perfil dessas pessoas (caso o espaço seja físico, observar as atitudes/posições da pessoa em outros espaços sociais que costuma ser quase sempre na internet), observar o que postam, o que dizem, como se posicionam.

Ocorreu frequentemente de várias pessoas estarem no grupo, se manifestarem pouco ou nem se manifestarem, e depois descobrirmos que tais pessoas mantinham posições que iam de oposto ao que o grupo defendia. Não sou adepta dos modelos que defendem que para expulsar uma pessoa ela deve somente manifestar o preconceito dentro do grupo. Acredito que uma pessoa que é preconceituosa em relação a uma minoria e participa de um grupo que defende direitos de tal minoria não está lá para se educar ou empatizar e sim procurando uma oportunidade de por em prática suas violências. Isso tem que ser observado inclusive (especialmente) se a pessoa é preconceituosa com uma minoria que não é a mesma que o grupo se propõe a militar. Por exemplo, em um grupo feminista uma pessoa sendo racista (ao invés de machista, o que seria esperado); e/ou uma pessoa sendo machista em um grupo de militância negra; e/ou uma pessoa sendo gordofóbica em um grupo de ativismo trans* etc. Ou seja: como dito, a segurança tem que se estender a todxs, seja a pessoa parte da mesma minoria que eu ou não.

Em suma: sempre dê aquela checada no perfil da pessoa, observe se a pessoa tem perfil falso[1] (fake) ou tem mais de um perfil na mesma rede social. Recorra a amigxs em comum com a pessoa: descubra se alguém a conhece pessoalmente ou se sabe de alguma coisa sobre ela. Construir um espaço seguro significa saber (na medida do possível) o que a pessoa faz fora do grupo para prevenir potenciais violências. Um homem que se diz feminista, mas curte páginas como “Orgulho de ser Hétero” ou chama mulheres de “vadias” em conversas com amigos, claramente é um indicador de que não cabe em um grupo feminista. Grupos secretos são mais fáceis de controlar, pois o fluxo de membrxs é menor. Certos grupos alegam que não “fiscalizam” o que xs membrxs fazem fora do grupo. Isso coloca em risco a segurança do grupo, pois muitas pessoas têm determinadas atitudes dentro do grupo, e outras contrárias fora dele. A velha hipocrisia deve ser combatida, pois é um forte indicador que a pessoa não acredita em nada do que está sendo reivindicado ali.

5)    Não rife certas minorias em prol de outras; não silencie denúncias de violência em prol do “todo”

Esse último ponto é um reforço do item 3 e 3.1: Não permita que certas pessoas perpetrem violência dentro do seu grupo porque essa pessoa também é parte de uma minoria marginalizada. No fim das contas você hierarquiza opressões e a mensagem que você passa é: “não me importo com X minoria marginalizada porque a luta da minoria Y que eu defendo é mais importante.” Cria um clima onde só certas pessoas de certas identidades participam, pois expulsa sumariamente as vítimas das violências perpetradas dentro do grupo, que não irão se sentir seguras/confortáveis em compartilhar espaço com agressorxs. Ainda preciso preparar um texto específico sobre expulsão simbólica de pessoas trans* de espaços feministas, pois aqui ainda cabe muito pano para manga.

Lidando diretamente: Ações de gestão imediatas

O que fazer quando você vê alguém sendo violento? Se o grupo dispõe de outrxs gestor/x(s), vai da percepção (e bom-senso) verificar se há a possibilidade de esperar para debater a expulsão dx(s) membrx(s) e de suas respectivas mensagens, ou de expulsar na mesma hora. Uma pessoa que num grupo feminista ofende outra com o termo “vadia” (e persiste), para mim não há dúvidas que ela deve ser eliminada imediatamente. Lembre-se que depois você pode readicioná-la caso seja uma briga pontual, ou caso você perceba que a pessoa se arrependeu e apenas “escorregou”. (considerando SEMPRE que a minoria ofendida esteja de acordo em compartilhar espaço e tenha se entendido/perdoado/afins a pessoa que perpetrou a violência). O importante é eliminar a violência o quanto antes, e não debater se aquilo foi uma violência ou não. Não trate violências como “tretas” pessoais, o ocorrido pode ser pessoal, mas a terminologia e argumentos usados frequentemente visam desqualificar as vítimas nos termos de suas identidades. Não é à toa que o exemplo acima do “vadia” é uma ofensa comum que é utilizada em brigas de todos os tipos, mas isso não faz do termo e do uso do mesmo algo menos machista.

Meu problema com grupos horizontais é que frequentemente deixam várias violências seguirem fluxo por muito tempo, pois perdem tempo debatendo, por exemplo, se chamar uma mulher trans* de “homem de batom e de saia” é transfobia. Premissas preconceituosas não podem ser toleradas, pois ninguém discute (ou não deveria) se chamar mulheres de vadias é machismo. Todxs nós ativistas temos certa noção do que é violento, mas vejo que certos grupos julgam certos preconceitos mais violentos do que outros – e isso é hierarquizar opressões, como eu tenho repetido. Não fique discutindo se X coisa foi violenta: elimine o comentário, remova a pessoa e depois informe aos/às demais gestor/x(s). Cada gestor/x deve ter autonomia para identificar e remover violências sem a burocratização de “votos” e afins, ou a espera eterna em uma lista de discussão por e-mails. Pense que enquanto você e outrxs gestores decidem, pessoas continuam sofrendo violência e isso é inaceitável. Dependendo do ocorrido, como por exemplo, (homens, sempre exemplos clássicos…) homens reclamando de espaços exclusivos ou relativizando estupro, se xs gestorxs estiverem disponíveis online é possível debater rapidamente. Eu costumo dar uma margem de 10-15 min depois de chamar outrxs gestorxs no chat. Se ultrapassar esse tempo, tomo a ação e depois informo. O importante é sempre prestar contas, pois mesmo que haja autonomia de gestão, não se deve perder de vista que todxs nós erramos. Geralmente a criação de diretrizes pode ser um bom norteador se você quiser manter uma certa ética sob sua gestão e a gestão de outrxs. Por esse meio é possível julgar caso haja gestorxs que abusem do poder/tomem ações não condizentes com o grupo.

Por fim: falei pouco de espaços físicos, mas devo deixar claro que dentro da minha militância, considero pouquíssimos espaços físicos como seguros. Isso acontece quase sempre porque o espaço deixa ocorrer transfobia sem sanções e/ou com burocratizações/soluções inúteis, que de nada servem para tornar o espaço seguro/receptivo para uma mulher trans*, gorda e queer, como eu. Quando você se deparar com um convite para adentrar um espaço físico, verifique se esse espaço tem diretrizes, se as cumpre, se já ocorreu casos de violência no espaço e como lidaram com isso. Saber como o espaço lidou com violências é sempre uma boa baliza para saber o que será feito caso você também sofra violência dentro do espaço. Quase sempre, infelizmente, as pessoas minimizam microagressões e silenciam relatos de violência. Lamentavelmente, para muitos lugares ainda há muito chão para se tornarem seguros. Isso inclui o grupo transfeminismo que, apesar dos meus esforços (e de todxs xs outrxs gestorxs) continua sendo ocupado por feministas transfóbicas que colocam nossa vida em risco – o que não quer dizer que eu não vá continuar trabalhando para deixar o espaço mais seguro possível.

Gostaria muito de ouvir sugestões e acréscimos sobre esse tema (espaço seguro), pois com certeza esse breve texto não abordou muitas situações. Espero que possa melhorá-lo com a ajuda de todas as pessoas que desejam construir um feminismo melhor e mais ético.

[1] Muitas pessoas trans*, como dito, precisam de anonimato, pois não podem se revelar trans* em seu círculo social. Por isso, muitas delas recorrem a perfis falsos para conseguirem se afirmar/identificar como trans*. Vai do bom-senso identificar tais perfis, inclusive conversar com a pessoa. Mas como não temos como saber, infelizmente, é bom ter cautela extra, especialmente em relação ao que tais pessoas fazem/falam fora do grupo.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. acho importante também se atentar a saúde das pessoas envolvidas.. ja participei de grupos que usam o TW para avisar de quando tratar de assuntos que podem fazer mal a nivel de causar pertubações e panico a algumas pessoas.. e pessoas em panico podem ser agressivas e acabam fazendo mal para si e para os outros
    quando esse tipo de aviso eh usado (falando de grupos de face e afins) fica mais facil para as pessoas evitarem esses gatilhos
    se preocupar com a propria participação também eh bom.. as vezes o melhor é não se envolver em determinados conflitos onde não possamos agir com a razão

    Responder

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