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A que custo se está defendendo os vagões exclusivos para mulheres?

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No ano passado, escrevi um texto falando sobre o projeto dos vagões exclusivos para mulheres, explicando porque para pessoas trans* a implementação dos vagões seria prejudicial. Recentemente, surgiram vários textos feministas na blogosfera contrários e a favor da medida, especialmente depois que a ANEL e MML postaram sobre, considerando a aprovação do projeto uma “vitória”.

De fato, o feminismo não é um movimento homogêneo – o movimento possui várias divergências, e atualmente uma delas é o vagão. Espero nesse texto reafirmar minha posição contrária e deixar explícito o custo ao qual esses vagões estão submetidos, custo esse não monetário, mas social.

No geral, os textos contrários ao vagão utilizam 6 argumentos gerais: 1) Que o vagão não vai comportar todas as mulheres, visto que estas são maioria demográfica em relação aos homens; 2) Que isolar mulheres por causa de assédio culpabiliza a vítima e não o agressor; 3) Que os vagões não impedem que homens entrem e que uma fiscalização é necessária para mantê-los fora; 4) Que essa medida não combate machismo estrutural e que é uma medida paliativa de pouco ou nenhum efeito; 5) Que as mulheres que não conseguirem, seja por quaisquer motivos, usar os vagões exclusivos e utilizarem os demais não-exclusivos, estarão sob o mesmo risco de assédio amplificado pelo fato de estarem no “lugar errado” e tal assédio ser justificado; e 6) Que as pessoas trans*, mulheres trans* mais especificamente, estarão sob risco de não poderem acessar com segurança tais vagões, dado o histórico já existente de expulsão ocorrido nos vagões exclusivos no Rio de Janeiro.

Resumidamente, esses são os principais pontos abordados por quem é contra a medida. Quem é a favor, argumenta que: 1) A demanda veio de mulheres trabalhadoras, que são as principais afetadas; 2) Não se está defendendo uma medida definitiva, mas provisória; 3) Que as feministas que são contra não oferecem outra solução a curto prazo; 4) Que a medida só funcionará em conjunto com outras que visam combater o machismo, e por isso é comparável com a Lei Maria da Penha ou as Cotas Raciais; 5) Que mesmo se nem todas as mulheres couberem nos vagões, pelo menos algumas estarão seguras e isso já é alguma coisa; E 6) Que os argumentos contrários são “ideológicos” e não refletem a “realidade”.

Não é minha intenção aqui revisitar todos esses argumentos. Posto aqui alguns textos sobre o assunto:

“Porque nós mulheres negras devemos ser contra o vagão rosa”, por Andreza Delgado no Blogueiras Negras.

“O vagão para mulheres só anda para trás”, por Marília Moschkovich no Outras Palavras.

“Vagão para mulheres: segregar não é proteger”, por Clara Averbuck na Carta Capital.

A possibilidade do vagão feminino em São Paulo revela como muito do feminismo ainda está disposto a rifar o direito das pessoas trans*”, por Hailey Kaas no Gênero à Deriva.

Contra os vagões femininos, pelo direito ao espaço público”, por Patrícia Rodrigues e Léa Marques no blogue da Marcha Mundial das Mulheres.

Brevemente, reafirmo que as feministas que defendem o vagão, ignoram que muitas de nós – senão a maioria – também somos usuárias assíduas do transporte público, especialmente Metrô e CPTM e não estamos falando de dentro dos nossos carros. Várias também fazem parte da classe trabalhadora, inclusive as mulheres trans*/travestis que utilizam o transporte público. Venho lembrar que a maioria das pessoas trans* estão em sub-empregos ou no trabalho sexual, porque não acessam o mercado de trabalho. Ademais, apresento o maravilhoso texto que a Marília Moschkovich escreveu no Outras Palavras oferecendo 5 medidas que são alternativas ao vagão exclusivo para amenizar o assédio no transporte público a curto prazo. Vale lembrar também que o problema do assédio não é só machismo, mas também reflete as políticas deficientes, que fazem pouco ou nada para resolver a superlotação do transporte e não oferecem nenhuma solução, quando não pioram o que já era ruim, a saber o escândalo dos cartéis do Metrô.

Mas para além de tudo isso, o argumento de que algumas mulheres se beneficiariam da medida, mesmo que todas não coubessem nos vagões, é verdadeiro. De fato, se pudéssemos aliviar a vida de algumas mulheres, mesmo que inicialmente não fosse possível para todas, isso deveria ser algo considerado. O problema é que não obstante o movimento feminista não ter histórico de se esforçar para englobar todas as mulheres, tendo sempre deixado muitas para trás, a medida além de não englobar todas, prejudica a vida de muitas outras mulheres. Não estou falando daquelas que não conseguirem utilizar o vagão por falta de espaço, ou somente das mulheres trans*. Me refiro aqui à segregação de gênero que os vagões exclusivos promovem.

Vivemos em uma sociedade altamente generificada. Gênero representa nossa própria ontologia e nossa humanidade é fundada pela categoria gênero. Desde os objetos de consumo generificados embasados em uma pseudo-ciência machista que posiciona homens e mulheres em lados opostos, como itens de higiene pessoal, até itens de entretenimento como filmes, brinquedos, Kinder Ovo e Canetas Bic, absolutamente tudo no mundo é feito pensando no binário homem/mulher. As revistas de fofoca já anunciam: “aprenda como os homens pensam”; E as Playboys: “saiba como impressioná-la na cama”. Incontáveis testes e dicas de como você tem que agir para ser socialmente aceita (e ser socialmente aceita em uma sociedade machista é ser/agir conforme os homens esperam que você seja/aja). Entretanto, as revistas “femininas” e “masculinas” são apenas a ponta do iceberg, somente parte do todo mecanismo machista e heterocissexista de reprodução do gênero binário – o Projeto Social de Gênero.

Socialmente, sabemos ou deveríamos saber como uma mulher ou um homem são “fisicamente”, ou “psicologicamente”. Essa estrutura, que é ao mesmo tempo a base e o corpo do Projeto Social de Gênero é o que chamamos de binarismo. É a crença machista e heterocissexista de que homens e mulheres são “naturalmente” diferentes e opostos, que mulheres são sensíveis e homens racionais, que mulheres são assim e homens assado, e assim por diante. Vivemos dia após dia recebendo esse reforço e automaticamente também o reproduzindo. Para que o Projeto Social de Gênero funcione, ele tem que contar com a participação de todxs. O machismo não é simplesmente uma estrutura de dominação, ele também se alimenta da ideia da diferença, do corpo estranho, do “segundo sexo”, das pessoas que são tão alienígenas e tão distantes que existe um planeta de distância entre elas. E é justamente por isso que os vagões são muito mais do que uma medida paliativa. São muito mais do que uma medida que potencialmente ajudam certo número de mulheres. Os vagões fazem parte do Projeto Social de Gênero, fazem parte da ferramenta de regulação dos gêneros. E para quem acha que estou falando a partir de um ponto de vista puramente metafísico, os danos dessas políticas têm se manifestado há anos. Mulheres e homens cis com aparência não-conforme ao (cis) gênero; Mulheres e homens trans* e pessoas não binárias, cotidianamente violentadxs verbalmente e fisicamente porque não estão adequadxs à norma. Mulheres lésbicas masculinizadas, homens gays afeminados. Mulheres e homens trans*/travestis que não “passam” expulsxs dos vagões, recebendo olhares intimidativos e convidativos a se retirar do ambiente. Os mesmos mecanismos de assepsia social, as mesmas táticas de expulsão que experimentamos diariamente, reproduzidas e reforçadas aqui. Trata-se de ajudar algumas mulheres, em detrimento de muitas, muitas outras, que além de sofrerem diariamente o assédio, também sofrem com o policiamento de gênero. O mesmo policiamento de gênero o qual os vagões serão uma forte ferramenta.

E quem vai pensar nessas pessoas? Já diria Preciado, quem cuida da criança queer? As feministas a favor do vagão argumentam que posteriormente o movimento lutará para a inclusão e proteção dessas mulheres que a priori ficarão de fora, principalmente mulheres trans*. Contudo se eu não posso confiar no movimento nem sequer para me tratar com o mínimo de respeito, a saber das feministas que aparentemente acham que transfobia é a nova moda do momento, muito menos eu confiaria meu destino ao movimento, infelizmente. Foram dois árduos e duros anos para que [parte d]o movimento reconhecesse o transfeminismo, e até hoje as feministas cis são bastante leigas em relação às questões trans*. Então, sinto muito se não confio na sua anunciada boa-vontade em lutar por mim, enquanto fecha os olhos para a transfobia dentro do próprio movimento. Além disso, o que se espera fazer para incluir mulheres trans* nos vagões? Supondo que fosse incluída na lei uma proteção especial, não decorre daí que na prática as mulheres trans*/travestis não fossem expulsas. Para mim isso é muito claro uma vez que sem fiscalização os homens entram nos vagões femininos, no Rio. A lei sozinha não faz magicamente a transfobia acabar, como não impede automaticamente os homens de entrarem no vagão feminino.

Por fim, acredito que o impacto da violência cissexista e binarista, que regula e policia os gêneros não está sendo devidamente considerado ou está sendo minimizado. Aliás, é essa mesma ideia que alimenta não só a premissa da segregação, mas também a ideia de que são as mulheres que têm de ser separadas. Por que não um vagão dos homens? Por que o direito de ir e vir das mulheres deve ser comprometido em função de uma violência que nem são elas que perpetram, em sua maioria?

Sobretudo: por que prejudicar a vida de muitas, sendo que poucas se beneficiarão com a medida (inclusive demograficamente)?

Mas, para além de discutir uma hierarquização criada talvez inintencionalmente por quem defende o vagão, devemos nos perguntar a que custo se está defendendo o mesmo.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

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  1. Oi Hailey,

    Queria te convidar para a mobilização que está rolando na rede Minha Sampa através de pressão direta no governador: http://paneladepressao.minhascidades.org.br/campaigns/476

    Um beijo!

    Responder
  2. Pingback: O vagão da segregação |

  3. Me agrada la claridad de ideas que tiene usted. En España no sufrimos el vagón rosa pero a cambio la gente no está concienciada de la lacra de la segregación sexual.

    Esto me recuerda a la segregación racial y a la valiente Rosa Parks: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Parks

    Responder

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