Assinatura RSS

Porque eu assinei a carta contra Alex Castro na Revista Fórum

Publicado em

Espero conseguir explicar nessa postagem o objetivo da carta de repúdio, resultado da união de vários coletivos no que concerne o escritor Alex Castro ocupando um espaço na Fórum. Mas primeiro, devo dizer que embora pareça que as críticas estão direcionadas a ele como pessoa, o que se fala é dele enquanto ativista, ou seja, o conjunto de escritos e posturas que nós vemos através da rede. Não sejamos ingênuas, contudo, de achar que se pode separar pessoal e político, de forma completamente cristalina. É óbvio que criamos uma antipatia pela pessoa dele, em decorrência do que temos de contato com ele – que é seu ativismo. Embora não se possa dizer que ele é “tudo isso” – obviamente que não afinal só temos um acesso limitado a sua pessoa – o que nos interessa aqui é Alex enquanto ativista, o que escreve e publica, e sua participação nos espaços de militância feminista etc.

Não é de hoje que cresce a insatisfação de muitas feministas em relação ao Alex Castro, em virtude de suas posturas condescendentes e de aparente disponibilidade para ouvir. Explico: Não é incomum diferentes mulheres feministas criticarem certos pontos do discurso de Castro e receber condescendência ou negação, contrariando seu discurso público de “saber seus próprios privilégios” e “ouvir minorias”.  Sempre que critiquei qualquer texto/discurso de Castro o que recebi foi condescendência. Quer dizer, quem está familiarizado com o termo dismiss em inglês, a ideia é essa: de ser dispensada. Vi o mesmo acontecer inúmeras vezes em espaços de discussão feministas públicos e privados, com outras feministas. Não há diálogo com quem não deseja dialogar, mas ironicamente em público se coloca como pessoa humilde e que ouve.

Ouvir não significa sempre um contexto de diálogos saudáveis. Não significa sempre debates limpinhos. Não sejamos ingênuxs de achar que feminismo (ou qualquer outro movimento social) se constrói num mundo encantando onde falamos e somos ouvidas sempre. Se fosse assim não precisaríamos cotidianamente nos fazer ouvidas à força. Pois é disso que se trata: cansamos de dialogar com quem diz que nos ouve só da boca para fora.

Recentemente, o Coletivo Pretas Candangas postou uma nota diretamente citando a feminista Jul Pagul num episódio de racismo. A atitude de Jul Pagul – para além dos detalhes do acontecido – foi de pedir desculpas e se disponibilizar para ouvir/discutir. A atitude de feministas como Jul Pagul é tão rara, que não tive como não citar aqui como exemplo positivo (e como a postagem é pública na página, acredito que não seja anti-ético).

Alex Castro não é mulher e não é trans*, ele não tem direito de escrever sobre mim. Decerto, a luta não se faz sozinha, precisamos de aliados. Mas precisar de aliados não significa aceitar qualquer um, acriticamente, inclusive quando o aliado em questão não ouve a minoria que alega defender. Estamos cansadas de ativismo da boca para fora, e se nosso ativismo tiver de ser o da Feminista Estraga-Prazeres, que seja. Não estou aqui para que gostem de mim, para fazer ativismo limpinho, estou aqui para emancipar e empoderar mulheres.

O que me leva ao ponto Revista Fórum. Correram boatos que a Revista Fórum havia convidado Alex Castro para escrever. Se foi convite ou ele pediu não vem ao caso, pouco importa, o fato é que foi aceito. Não foi para escrever sobre questões de esquerda no geral, mas para falar sobre minorias. Quem me segue/lê sabe que eu defendo não só a inclusão de homens no feminismo, como tenho zero problemas em ver homens falando do mesmo. A questão não é de Alex Castro ser um homem escrevendo sobre feminismo, a questão é ele escrever e não ouvir críticas das pessoas que ele alega defender. A questão é toda a miríade de descaso e condescendência com que ele trata minorias que o criticam. A carta foi publicada e pergunte se ele sequer entrou em contato para dialogar com qualquer pessoa que a assinou?

Mas pois bem, Alex entrou na Fórum para falar sobre minorias. Sobre nós. E foi justamente nesse momento que nós, mulheres negras e trans*, nos levantamos para contestar. Como poderíamos apoiar que uma pessoa, ainda mais sendo tão mais privilegiada do que nós, falasse sobre nós sendo que nós não nos sentíamos representadas por ela?

Alex Castro não é meu aliado. Não pode ser meu aliado quem deseja meu silencio. Quem não me ouve. Quem não quer construir em conjunto.

Porque, afinal, se ele tivesse vindo dialogar conosco, certamente teríamos abaixado a guarda. É verdade que, no calor da raiva, muitas falaram o que não deviam. Não acho correto, mas como posso julgar aquelas que cotidianamente têm espaços negados, sem emprego e educação, seguidas em lojas e bancos, xingadas e criticadas por tudo, precisando da “caridade” alheia para sobreviver?

Curiosamente, as feministas que o defenderam são todas brancas e cisgêneras, de classe média. São essas mesmas feministas que se calam diante do racismo e da transfobia da colega e tratam como “treta” ou minimizam o impacto da violência. Convido essas feministas a reavaliarem seus próprios lugares de fala em relação às negras e trans*. Quantas blogueiras trans* conhecem em veículos de esquerda de grande circulação? E negras? Ah, mas tem o Blogueiras Negras e a Jarid na revista Fórum, então tudo bem, batemos a cota. O que é meia dúzia (sendo generosa) de blogueiras negras (e praticamente nenhuma trans*) perante o mar de homens brancos cisgêneros que dominam a blogosfera? A discussão aqui é outra, não é do Alex Castro per se, mas de representatibilidade.

Não é de hoje que existem críticas à falta de mulheres (feministas) na blogosfera de esquerda. Quando falamos de machismo, racismo e cissexismo estamos falando de toda uma estrutura social que nos mantem à margem, através da prevenção ou dificuldade de acesso de espaços comumente ocupados por homens brancos e cisgêneros. Então, a carta de repúdio se resumiu a antagonizar a ocupação de um espaço de esquerda por um homem branco e cisgênero que iria falar por nós. Falar POR mim é diferente de falar DE mim. Essa diferença é essencial.

Por que a Fórum não convidou outras pessoas, minorias? Por que se diz defender minorias, mas não se dá espaço para que elas falem sobre si? Por que o espaço é dado a pessoas privilegiadas em relação a nós, que já ocupam todos os outros espaços sociais? Para as feministas que argumentaram que se tratava simplesmente de ir pedir espaço para concorrer com um homem cis branco (as mesmas brancas e cisgêneras que citei, também de classe média), é muito fácil falar quando não precisam literalmente gritar para serem ouvidas dentro do feminismo. Sim, porque para nós, negras e trans*, é necessário que gritemos para sermos ouvidas dentro de um movimento que diz nos representar. Precisamos conquistar os espaços, sempre.

Há muitas pessoas dizendo que nos representam, todavia o curioso é que o espaço para que falemos por nós não nos é dado. Nossa existência só é possível se tutelada por homens e mulheres brancxs cisgêneros.

Se não conseguem ver o quadro geral e o simbolismo que representa essa ocupação, só tenho a lamentar a visão míope que a esquerda feminista tem do que é ser uma minoria, do que é não ter voz, do que é ser tutelada.

Coloquem os textos bonitos, cheio de floreios e humildades para funcionar na prática.

Afinal, estou me perguntando quem realmente está fazendo “webativismo”.

 

Anúncios

Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

»

  1. Republicou isso em Porcausadamulhere comentado:
    “Não é de hoje que existem críticas à falta de mulheres (feministas) na blogosfera de esquerda. Quando falamos de machismo, racismo e cissexismo estamos falando de toda uma estrutura social que nos mantem à margem, através da prevenção ou dificuldade de acesso de espaços comumente ocupados por homens brancos e cisgêneros. Então, a carta de repúdio se resumiu a antagonizar a ocupação de um espaço de esquerda por um homem branco e cisgênero que iria falar por nós. Falar POR mim é diferente de falar DE mim. Essa diferença é essencial.”

    Responder
  2. te admiro bagaray, e faço meu mea culpa pq não tive a coragem de dar a cara a tapa e ir contra quase todo mundo que conheço pq embora não tenha gostado dos termos da carta e tenha seus equívocos- ele se ofereceu e não é pago- ele sim, se aproveita de um assunto em voga, minorias, feminismo, ea forum idem, pra receber cliques e venderem outros produtos- ele cursos e a forum publicidade. e isso me incomoda exatamente pelos motivos que vc citou a condescendência a a não representatividade. ademais acho muito leal isso de dizer- não gosto de fulano e talvez isso influencie em parte meu julgamento, pq tb poderia ser igualmente dito, fulano é meu amigo e isso tb influencia em parte meu julgamento. bjs

    Responder
    • Estou muito feliz com a receptividade desse texto, porque ontem e no FDS eu estava quase assassinando azamiga feminista que estavam detonando a carta hahaha

      Tudo é questão do como é colocado né.

      Responder
    • Bete Davis, obrigada pela sororidade e só um lembrete: na carta nunca esteve escrito que ele recebe da Fórum pra publicar. Havia um parágrafo que falava dos cursos pagos que só foi tirado pelo medo da carta ser denunciada novamente. Mas esses cursos, conversas, seja lá o que isso for, continuam existindo e sendo cobrados.

      Responder
      • E como esses encontros não tem ligações com a Revista Fórum e a carta era direcionada a ela, retiramos também por isso. Mas nossa opinião sobre ele cobrar para falar sobre assuntos que não lhes compete, continua sendo a mesma.

        Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: