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Sobre o tornar-se negra e o acolhimento da militância feminista negra

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– Nossa filha, que lindo seu turbante!

– Não sabia que você conhecia mãe, você nunca comentou nada!

– Conheço sim, sua avó usava muito… E eu me lembro da minha avó usando também, era sempre branco. Eu costumava sentar no colo dela quando criança, me lembro bem…

– Você nunca comentou comigo! Achei que não manjava dessas coisas…

Essa conversa eu tive com minha mãe, logo depois que comprei meu primeiro turbante da Boutique de Kriola, no I Encontro de Blogueiras Negras de São Paulo. Antes, jamais poderia imaginar que minha mãe tinha alguma lembrança ou conexão com qualquer símbolo da cultura negra. Apesar de minha avó ser negra, minha mãe tem a pele ainda mais clara que a minha. Essa conversa me deixou feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz, porque eu jamais imaginei que minha mãe tivesse essas lembranças, e foi muito empoderador, inclusive para mim como trans*, ouvir elogios sobre meu turbante. Nós, mulheres negras, sempre somos malvistas se ousamos assumir nossas origens e símbolos, se ousamos deixar o cabelo solto sem “domesticá-lo” – para usar o termo utilizado pelos produtos para cabelos cacheados – e, principalmente, quando usamos turbantes. Reparei que as pessoas me encaram muito mais agora quando saio com turbante. E triste porque levou 25 anos para que eu descobrisse essa conexão tão maravilhosa com minhas antepassadas negras. Eu sabia que era afrodescendente, sem dúvida, mas só recentemente, através da aproximação com mulheres negras maravilhosas, que comecei a repensar minha pele, meu corpo, meu rosto, minhas origens. Até então, eu passei minha vida toda me entendendo como branca. Não recebi quase nenhum racismo na infância, ou se recebi não o entendi como racismo na época. Obviamente que insultos em relação ao meu rosto, corpo e cabelo sempre foram frequentes, ainda mais depois que me assumi trans*, mas geralmente eu sempre fui lida como branca neste país do mito da democracia racial, onde jogadores negros se querem brancos ou “morenos” para lavar o “preto sujo” dos olhos dos brancos caucasianos que se acham herdeiros da Europa.

Moreno(a). Esse eu ouvi bastante. Eu era morena, às vezes branca. Nunca negra ou preta. Eu tinha meus próprios racismos internalizados. Queria ter cabelo liso, usar base com tom acima daquele da minha pele para parecer mais branca, afinar meus traços, meu nariz de batata. Como muitas mulheres negras, sofri com minha aparência e quis afinar meus traços para me aproximar das modelos brancas estrangeiras. Isso foi muito forte na minha adolescência, somando a questão da transexualidade e o fato de que eu ouvia muito metal e minhas “musas” eram sempre mulheres brancas europeias vocalistas de bandas de metal nórdicas.

Na realidade, esse texto é menos um desabafo e mais um agradecimento. Um profundo agradecimento a todas essas maravilhosas mulheres negras do grupo e blogue Blogueiras Negras e todas as outras negras as quais tive contato durante minha militância. Essas mulheres fortes, de luta, que me acolheram, me ajudaram, me ouviram, me orientaram. Tenho uma imensa admiração e respeito pela militância feminista negra que lida diariamente com o racismo das feministas brancas e o machismo dos homens militantes negros. Vocês são maravilhosas e não cabe elogio suficiente nesse pequeno texto.

Só minha singela homenagem.

Hailey Kaas, mulher trans*, PRETA, NEGRA, AFRODESCENDENTE, tudo isso, como quiserem me chamar.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

Uma resposta »

  1. “Moreno(a). Esse eu ouvi bastante. Eu era morena, às vezes branca. Nunca negra ou preta. ” mas deve ser justamente porque você é morena, né?
    não acho que isso seja apagamento pois você é miscigenada, claramente fisicamente muito miscigenada.
    eu conheço pessoas PRETAS que são tidas como “moreninhas” e que devido a essa socialização elas mesmas não se reconhecem negras.
    se você se identifica com a identidade negra e assim quer se identificar, muito bem. mas não acho viável isso não acontecer com todxs xs miscigenadxs sendo *culpa* do racismo da sociedade se o que acontece é as pessoas serem mestiças.

    aqui tá rolando a one drop rule dos estados unidos: se você não é 100% brancx = é negrx. e o buraco é mais em baixo, se existiu a mistura de genes e características, tem como se ficar no meio do brancx e negrx; bem no meio, ou mais pro brancx ou mais pro negrx. sem ter que necessariamente, por não ser todo brancx, ter que ser negrx.

    como disse, respeito sua identidade e a de quem quiser se considerar o que quiser, mas eu não sou a favor dessa one drop rule que tá rolando aqui e não abomino o termo “morenx” – se é o que a pessoa é, de fato.

    Responder

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