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Verônica, Ainda, e Sempre.

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Quanto mais leio e vejo (sim, ainda estou lendo e vendo vídeos a respeito, e eu não consegui escrever nada sobre o assunto tamanha era a violência do caso – talvez esse seja o único texto que escreverei) sobre Verônica, leio os comentários cheios de ódio, reforçando a ação da polícia, dizendo que “ele” (sic) tinha que apanhar ou morrer, que era “nojento”, “pervertido”; Comentários usando friamente (e de forma manipuladora) a senhora espancada como justificativa para transfobia (alô TERFs), vejo o quão ainda estamos longe, enquanto feministas, de compreender o que é intersecionalidade, de somar na luta dxs outrxs, de se solidarizar com todas as vítimas de violência sem justiçamentos (daí porque tenho pés atrás com escracho de homens como estratégia feminista, embora eu compreenda), mas, sobretudo, me parece que todos esses argumentos aludem à vítima perfeita, tal qual o feminismo corrente (mainstream) ironiza nos casos de estupros distorcidos pelo machismo.

Verônica, então, para ser defendida, para ser digna de respeito e empatia, deveria ser a vítima perfeita. Para começar, não poderia ser travesti, afinal travestis por si só são uma aberração, um desvio e são todas pervertidas. Depois, deveria ser branca e estar andando durante o dia, inocente, talvez indo ao mercado comprar leite para xs potenciais irmãos/irmãs doentes. Deveria ser trabalhadora, mas não trabalhadora sexual, pois seria imoral; Deveria ser, por exemplo, operadora de telemarketing (afinal esse é o único emprego que conseguimos no setor formal – e, vale lembrar, terceirizado). Assim, Verônica, uma mulher (cis, é claro) branca, trabalhadora, indo ao mercado comprar alimentos, é abordada pela polícia e sem motivo algum é presa, tem seus cabelos raspados, é torturada, espancada, desfigurada, sabe-se deus se não estuprada e exposta semi-nua por policiais homens em uma cadeia masculina.

Assim, para que parte do feminismo e da ex-querda, e talvez quem sabe, até mesmo da direita, possam ser “todasverônica”, é necessário que tragamos Verônica para o campo do humano, e isso só é possível através de sua transformação em uma pessoa cis e branca, não-trabalhadora sexual, isenta de crimes.

Mas, como infelizmente não vivemos na ficção, temos uma Verônica travesti, negra, pobre, violenta, que espancou uma senhora idosa, sendo presa (legitimamente, pelo seu crime), tendo seus cabelos raspados, torturada, espancada, desfigurada, sabe-se deus se não estuprada e exposta semi-nua por policiais homens em uma cadeia, lembremos novamente, masculina.

Todas as vítimas da violência policial, vítimas do estado, merecem empatia, merecem defesa, independentemente de terem cometido crimes ou não. Essas pessoas, em sua maioria, têm raça, têm (identidade de) gênero, têm sexualidade, tem classe social.

Parece que ainda precisamos de uma vítima que seja adequada ao nosso ativismo, aquela que se encaixa direitinho no meu feminismo, aquela cuja qual minha empatia é acionada automaticamente, afinal, eu mesma me identifico com ela, branca e cisgênera, muito mais do que um “traveco sujo e pervertido”. Mesmo nos movimentos sociais ainda existem aquelas pessoas adeptas do “bandido bom é bandido morto”, pois não se enganem é exatamente essa ideia que está em ação no caso Verônica, com o coro, infelizmente, de parte do movimento feminista que não vê em Verônica uma igual. Talvez seja exatamente por isso que precisamos do transfeminismo.

Resta saber se continuaremos defendendo figuras fictícias ou se somaremos na luta de outras identidades distintas das nossas, estendendo a elas a mesma empatia, a mesma solidariedade que temos automaticamente com aquelas pessoas com as quais nos identificamos.

Se não tivermos ao menos isso em mente, nos resta a barbárie.

P.S. Gostaria muito de agradecer à moça do Divas e Crespas (desculpe não sei seu nome!). Seus vídeos sobre Verônica me fortaleceram muito para, enfim, escrever sobre.

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Sobre Hailey

Tradutora residente em São Paulo; Pesquisadora das áreas de Linguística, Teoria Queer, Gênero e (Trans)feminismo. Transfeminista e ativista por Feminismo Intersecional.

Uma resposta »

  1. Não concordo com o que fizeram com a Verônica, mas queria comentar/perguntar umas coisas na boa, espero que não se incomode!

    1) Verônica já tinha os cabelos raspados e usava peruca, de acordo com as vizinhas agredidas. Isso não diminui a tortura, mas é algo que estão espalhando sem muita fonte, então não é legal.
    2) Não é só mulher trans que vai pra cadeia masculina, né? Uma menina (cis) de 15 anos ficou numa cela masculina (com mais de 30 homens) por 26 dias no Pará em 2007, e foi estuprada repetidamente. Caso de exposição corporal e humilhação policial é comum com qualquer mulher, por mais horrível que isso seja.
    3) Concordo que Verônica deveria ter ido para uma cadeia feminina, mas qual sua opinião a respeito de homens trans? Deveriam ir para cadeia masculina? Não seria perigoso?

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