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Verônica, Ainda, e Sempre.

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Quanto mais leio e vejo (sim, ainda estou lendo e vendo vídeos a respeito, e eu não consegui escrever nada sobre o assunto tamanha era a violência do caso – talvez esse seja o único texto que escreverei) sobre Verônica, leio os comentários cheios de ódio, reforçando a ação da polícia, dizendo que “ele” (sic) tinha que apanhar ou morrer, que era “nojento”, “pervertido”; Comentários usando friamente (e de forma manipuladora) a senhora espancada como justificativa para transfobia (alô TERFs), vejo o quão ainda estamos longe, enquanto feministas, de compreender o que é intersecionalidade, de somar na luta dxs outrxs, de se solidarizar com todas as vítimas de violência sem justiçamentos (daí porque tenho pés atrás com escracho de homens como estratégia feminista, embora eu compreenda), mas, sobretudo, me parece que todos esses argumentos aludem à vítima perfeita, tal qual o feminismo corrente (mainstream) ironiza nos casos de estupros distorcidos pelo machismo.

Verônica, então, para ser defendida, para ser digna de respeito e empatia, deveria ser a vítima perfeita. Para começar, não poderia ser travesti, afinal travestis por si só são uma aberração, um desvio e são todas pervertidas. Depois, deveria ser branca e estar andando durante o dia, inocente, talvez indo ao mercado comprar leite para xs potenciais irmãos/irmãs doentes. Deveria ser trabalhadora, mas não trabalhadora sexual, pois seria imoral; Deveria ser, por exemplo, operadora de telemarketing (afinal esse é o único emprego que conseguimos no setor formal – e, vale lembrar, terceirizado). Assim, Verônica, uma mulher (cis, é claro) branca, trabalhadora, indo ao mercado comprar alimentos, é abordada pela polícia e sem motivo algum é presa, tem seus cabelos raspados, é torturada, espancada, desfigurada, sabe-se deus se não estuprada e exposta semi-nua por policiais homens em uma cadeia masculina.

Assim, para que parte do feminismo e da ex-querda, e talvez quem sabe, até mesmo da direita, possam ser “todasverônica”, é necessário que tragamos Verônica para o campo do humano, e isso só é possível através de sua transformação em uma pessoa cis e branca, não-trabalhadora sexual, isenta de crimes.

Mas, como infelizmente não vivemos na ficção, temos uma Verônica travesti, negra, pobre, violenta, que espancou uma senhora idosa, sendo presa (legitimamente, pelo seu crime), tendo seus cabelos raspados, torturada, espancada, desfigurada, sabe-se deus se não estuprada e exposta semi-nua por policiais homens em uma cadeia, lembremos novamente, masculina.

Todas as vítimas da violência policial, vítimas do estado, merecem empatia, merecem defesa, independentemente de terem cometido crimes ou não. Essas pessoas, em sua maioria, têm raça, têm (identidade de) gênero, têm sexualidade, tem classe social.

Parece que ainda precisamos de uma vítima que seja adequada ao nosso ativismo, aquela que se encaixa direitinho no meu feminismo, aquela cuja qual minha empatia é acionada automaticamente, afinal, eu mesma me identifico com ela, branca e cisgênera, muito mais do que um “traveco sujo e pervertido”. Mesmo nos movimentos sociais ainda existem aquelas pessoas adeptas do “bandido bom é bandido morto”, pois não se enganem é exatamente essa ideia que está em ação no caso Verônica, com o coro, infelizmente, de parte do movimento feminista que não vê em Verônica uma igual. Talvez seja exatamente por isso que precisamos do transfeminismo.

Resta saber se continuaremos defendendo figuras fictícias ou se somaremos na luta de outras identidades distintas das nossas, estendendo a elas a mesma empatia, a mesma solidariedade que temos automaticamente com aquelas pessoas com as quais nos identificamos.

Se não tivermos ao menos isso em mente, nos resta a barbárie.

P.S. Gostaria muito de agradecer à moça do Divas e Crespas (desculpe não sei seu nome!). Seus vídeos sobre Verônica me fortaleceram muito para, enfim, escrever sobre.

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Viado faz amor, Travesti só come bundas; Jean Wyllys e a hipersexualização das mulheres trans*

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Essa semana rolou na internet/Facebook uma campanha veiculada pelo deputado Jean Wyllys que visava prevenção de DSTs através do uso da camisinha. Três vídeos e duas¹ tirinhas foram feitos em parceria com o famigerado grupo Fora do Eixo (chegaremos à questão do Fora do Eixo posteriormente).

O primeiro vídeo, protagonizado por – como nos é apresentado – dois homens cis gays, constrói uma narrativa prévia ao encontro de sexo casual arranjado via Whatsapp e, vale lembrar, o cenário onde se passa o vídeo é uma piscina. Os dois atores se beijam e, quando o que se sugere é que haverá sexo logo depois, um deles aparece com uma bebida junto com camisinhas.

O segundo vídeo, fruto do meu desafeto (assim como de muitas outras mulheres trans*), mostra um homem com roupa considerada socialmente como feminina e uma mulher trans* na porta de casa. O cenário do encontro, notem, é a rua. O rapaz se aproxima mexendo no pau, pergunta alguma coisa e a puxa, no que ela diz algo em seu ouvido – o que se sugere, então, é que haverá sexo casual e a cena seguinte mostra ambos iniciando uma transa com ela como ativa. Ela pergunta se ele tem camisinha, ele responde que não e pede para fazer sem, então ela o rejeita.

Vale lembrar que há informações (não confirmadas, vale lembrar também) que no roteiro original quem pede para fazer sem camisinha é a mulher trans* (e por consequência ele a rejeitaria), mas a pedido da atriz o roteiro foi alterado.

O terceiro e último vídeo é um vídeo geral sobre prevenção protagonizado por três homens apresentados como gays, comentando sobre o uso da camisinha no formato “puxão de orelha”. No começo do vídeo, um dos atores (terceiro que aparece no vídeo) comenta que a camisinha é uma das formas mais eficazes de prevenir gravidez, e isso é usado como piada (uma vez que o segundo ator indaga “quê??” e o terceiro, imediatamente, diz “ops” e “retifica” a afirmação prévia). A ideia de que gays não engravidam porque são gays (e automaticamente cisgêneros) exemplifica o cissexismo mais básico. Como já afirmei repetidamente neste blogue e nas redes sociais, Homossexualidade não requer simetria genital, assim como heterossexualidade não requer assimetria genital.

Até agora, indo muito além do escopo inicial desse texto, listei três problemas: O segundo vídeo protagonizado pela mulher trans*, o terceiro vídeo com o apagamento cissexista das sexualidades das pessoas trans* e o fato do coletivo Fora do Eixo ter sido parte da produção da campanha. Há ainda um quarto problema: A segunda tirinha mostra uma mulher sendo convidada por um homem para sexo casual. Ele não tem camisinha, mas uma segunda mulher que aparece na tirinha revela ter, e a tirinha termina com a sugestão de que as duas mulheres saíram juntas. Wyllys, na descrição da tirinha em sua página do Facebook, escreveu o seguinte: “Ela gosta de meninos, e também de meninas”. Depreendemos então que se tratava se uma personagem bissexual.

Não há problema algum em representar mulheres trans* fazendo sexo. Nem como “passivas” e nem como “ativas” (termos que desejo fortemente que deixem de existir algum dia). Também não há nenhum problema em representar mulheres bissexuais, aliás, ao contrário, precisamos urgentemente de representação. Qual seria então o problema?

Representação a qualquer custo? Hipersexualização

Historicamente, mulheres trans* partilham de uma visão social similar com mulheres cis negras: nossos corpos são considerados objeto de fetiche por homens cis, na maioria brancos, que nos veem como bonecas infláveis. O estereótipo da “travesti safada”, insaciável, que leva qualquer um para casa, com sexualidade descontrolada (hipersexual) sinalizada pela presença de um pênis é reforçado no vídeo tanto pelo cenário (rua), quanto pelo contexto. Não há uma narrativa prévia ao convite sexual como ocorre no primeiro vídeo. Não há cenário com piscina dentro do espaço privado. Mais uma vez vemos que nosso cenário é a rua, não precisamos de nenhuma narrativa prévia para transar, afinal somos máquinas de sexo, e só servimos enquanto objetos quando temos um “algo a mais” a oferecer: comer os homens cis héteros que, em casa, não têm a conveniência de solicitar fios-terra às suas companheiras cis. Somos o “plus” que homens vêm procurar na rua, porque não encontram em casa, no melhor estilo mulher cisgênera para casar, travesti para fuder: basta que esses homens apareçam mexendo no pau para atiçar nosso apetite insaciável por sexo.

Esse estereótipo é muito forte, pergunte a qualquer menina trans* quantas vezes já foram abordadas por homens aleatórios no Facebook simplesmente por revelarem em seus perfis que são trans*. Esse é o exercício mais básico que comprova essa visão. Em nossa sociedade só existimos enquanto máquinas de prazer. Amor, relacionamentos (monogâmicos sim, inclusive), família, afeto, nada disso nos é associado. A rua é nossa casa, o pau é nosso instrumento de trabalho, afinal viados fazem amor, mas travestis só comem bundas. Muitas vezes cobrando, outras não.

Problemática da representação da bissexualidade

O problema da representação das mulheres bissexuais é similar à das mulheres trans*: essas mulheres também são vistas como tendo um “algo a mais”, um “plus” em relação à norma que permite que homens heterossexuais possam realizar suas fantasias. São tanto alvo de fetiche quanto mulheres trans*, em um eixo diferente. Apresentar uma mulher bissexual da forma como a tirinha apresenta, como uma mulher que, mediante a não possibilidade de transar com homem (apresentado como o default, aliás, notem que a primeira opção é o homem) prontamente o “troca” por uma mulher. A sensação de troca para mim fica implícita no último quadro com a tentativa de apresentar o homem como “perdedor” por não ter camisinha. O estereótipo da “troca” ainda atinge fortemente os relacionamentos de pessoas bissexuais que são vistas como pessoas que inevitavelmente vão trair, “trocando” seus/suas companheirxs por outrx(s) de outro gênero e reforça a ideia de que pessoas bissexuais não conseguem “naturalmente” ser monogâmicas². Ainda poderíamos comentar que nenhuma campanha apresentou mulheres cis lésbicas. Ou será que o ilustre deputado acha que por não ter pau no meio não tem risco de DST?

Gravidez e cissexismo

Como dito, um dos vídeos faz uma piada em relação à prevenção de gravidez. Ora, logicamente gays não engravidam não é mesmo? Errado. Pessoas trans* podem ser também gays, lésbicas, bissexuais. Isso quer dizer que em um casal lésbico formado por uma mulher cis e outra trans* há possibilidades de gravidez. O mesmo no caso de um casal formado por um homem trans* e outro cis. Repetindo: homossexualidade não requer simetria genital; Heterossexualidade não requer assimetria genital. A campanha do deputado parece esquecer isso.

Wyllys e a escalada de problemas

Ano passado, diante da crítica colocada por parte do movimento negro em relação ao programa “sexo e as nega” (que aparentemente foi cancelado, para nosso alívio), Wyllys fez um vídeo defendendo o programa e Falabella. Não obstante ele 1) não ser mulher negra 2) não estar articulado como movimento de mulheres negras 3) não estar articulado sequer com os setores militantes de seu próprio partido, Wyllys não ouviu críticas e manteve seu posicionamento machista e racista. Desde então ele tem constantemente metido os pés pelas mãos com uma sucessão de gafes, como sugerir que os próprios gays são culpados pela homofobia (no estilo fulano é homofóbico porque é enrustido), sugerir que pessoas homofóbicas são burras ou menos inteligentes, usando inclusive tirinhas (em forma de piada) compartilhadas a partir do famigerado machista e transfóbico cientista de brinquedo Eli Vieira, dar uma entrevista a um jornal sugerindo que mulheres trans* são homens vestidos de mulher… Exemplos não faltam. Me pergunto se a ASCOM do deputado é muito ruim, se ele sempre foi assim e eu nunca reparei ou se ambos.

Por fim, reforço que não há problemas em representar pessoas bissexuais e/ou pessoas trans* como pessoas que têm relacionamentos casuais, como pessoas que transam; Não há problema em transar com desconhecidxs na rua, minha crítica não parte do ponto de vista moral. O problema está em consciente ou inconscientemente perpetuar um estereótipo nocivo contra pessoas trans* e/ou pessoas bissexuais. Somos hipersexualizadas socialmente, por isso nossa representação não pode ser tomada como igual à de outras pessoas. Sofremos com um eixo diferente de opressão.

Para terminar, sem esquecer, o Fora do Eixo é reconhecidamente por muitas pessoas que militam na esquerda, um coletivo de intenções no mínimo dúbias. Não é de hoje que correm denúncias de captação de editais polpudos com zero pagamento de verba para xs artistas envolvidxs – aliás, como ocorreu também nessa campanha do Wyllys. Não é de hoje também que o Fora do Eixo é persona non grata de outros coletivos que não querem ser associados a ele, uma vez que é sabido que o Fora do Eixo coopta coletivos e usurpa seus protagonismos.

*Agradeço à Sueli Feliziani pelo título desse texto.

¹ Wyllys postou uma terceira tirinha com uma mulher trans* (?) tentando consertar o vídeo o qual recebeu uma enxurrada de críticas. Muito louvável por um lado, mas os comentários do deputado (se defendendo de transfobia usando a Lei João Nery) são mais um tiro no pé do que um mea culpa. Os comentários se aproximam muito mais do sentido de explicar sua intenção do que trabalhar na questão que abordo no texto: hipersexualização de mulheres trans*. A intenção nós já sabíamos deputado. O que queremos é uma discussão mais profunda, algo que você não traz e nem parece interessado em trazer.

² Certamente, uma discussão sobre monogamia compulsória e a problemática da mesma deve ser feita, mas acho melhor desenvolver um texto específico para tal. Além disso, vejo com ressalvas a aplicação de críticas à monogamia que não levam em contra recortes como classe, raça, identidade de gênero e sexualidade. É fácil não ser monogâmicx quando se tem uma identidade e corpo normativos.

Sobre o tornar-se negra e o acolhimento da militância feminista negra

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– Nossa filha, que lindo seu turbante!

– Não sabia que você conhecia mãe, você nunca comentou nada!

– Conheço sim, sua avó usava muito… E eu me lembro da minha avó usando também, era sempre branco. Eu costumava sentar no colo dela quando criança, me lembro bem…

– Você nunca comentou comigo! Achei que não manjava dessas coisas…

Essa conversa eu tive com minha mãe, logo depois que comprei meu primeiro turbante da Boutique de Kriola, no I Encontro de Blogueiras Negras de São Paulo. Antes, jamais poderia imaginar que minha mãe tinha alguma lembrança ou conexão com qualquer símbolo da cultura negra. Apesar de minha avó ser negra, minha mãe tem a pele ainda mais clara que a minha. Essa conversa me deixou feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz, porque eu jamais imaginei que minha mãe tivesse essas lembranças, e foi muito empoderador, inclusive para mim como trans*, ouvir elogios sobre meu turbante. Nós, mulheres negras, sempre somos malvistas se ousamos assumir nossas origens e símbolos, se ousamos deixar o cabelo solto sem “domesticá-lo” – para usar o termo utilizado pelos produtos para cabelos cacheados – e, principalmente, quando usamos turbantes. Reparei que as pessoas me encaram muito mais agora quando saio com turbante. E triste porque levou 25 anos para que eu descobrisse essa conexão tão maravilhosa com minhas antepassadas negras. Eu sabia que era afrodescendente, sem dúvida, mas só recentemente, através da aproximação com mulheres negras maravilhosas, que comecei a repensar minha pele, meu corpo, meu rosto, minhas origens. Até então, eu passei minha vida toda me entendendo como branca. Não recebi quase nenhum racismo na infância, ou se recebi não o entendi como racismo na época. Obviamente que insultos em relação ao meu rosto, corpo e cabelo sempre foram frequentes, ainda mais depois que me assumi trans*, mas geralmente eu sempre fui lida como branca neste país do mito da democracia racial, onde jogadores negros se querem brancos ou “morenos” para lavar o “preto sujo” dos olhos dos brancos caucasianos que se acham herdeiros da Europa.

Moreno(a). Esse eu ouvi bastante. Eu era morena, às vezes branca. Nunca negra ou preta. Eu tinha meus próprios racismos internalizados. Queria ter cabelo liso, usar base com tom acima daquele da minha pele para parecer mais branca, afinar meus traços, meu nariz de batata. Como muitas mulheres negras, sofri com minha aparência e quis afinar meus traços para me aproximar das modelos brancas estrangeiras. Isso foi muito forte na minha adolescência, somando a questão da transexualidade e o fato de que eu ouvia muito metal e minhas “musas” eram sempre mulheres brancas europeias vocalistas de bandas de metal nórdicas.

Na realidade, esse texto é menos um desabafo e mais um agradecimento. Um profundo agradecimento a todas essas maravilhosas mulheres negras do grupo e blogue Blogueiras Negras e todas as outras negras as quais tive contato durante minha militância. Essas mulheres fortes, de luta, que me acolheram, me ajudaram, me ouviram, me orientaram. Tenho uma imensa admiração e respeito pela militância feminista negra que lida diariamente com o racismo das feministas brancas e o machismo dos homens militantes negros. Vocês são maravilhosas e não cabe elogio suficiente nesse pequeno texto.

Só minha singela homenagem.

Hailey Kaas, mulher trans*, PRETA, NEGRA, AFRODESCENDENTE, tudo isso, como quiserem me chamar.

Porque eu assinei a carta contra Alex Castro na Revista Fórum

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Espero conseguir explicar nessa postagem o objetivo da carta de repúdio, resultado da união de vários coletivos no que concerne o escritor Alex Castro ocupando um espaço na Fórum. Mas primeiro, devo dizer que embora pareça que as críticas estão direcionadas a ele como pessoa, o que se fala é dele enquanto ativista, ou seja, o conjunto de escritos e posturas que nós vemos através da rede. Não sejamos ingênuas, contudo, de achar que se pode separar pessoal e político, de forma completamente cristalina. É óbvio que criamos uma antipatia pela pessoa dele, em decorrência do que temos de contato com ele – que é seu ativismo. Embora não se possa dizer que ele é “tudo isso” – obviamente que não afinal só temos um acesso limitado a sua pessoa – o que nos interessa aqui é Alex enquanto ativista, o que escreve e publica, e sua participação nos espaços de militância feminista etc.

Não é de hoje que cresce a insatisfação de muitas feministas em relação ao Alex Castro, em virtude de suas posturas condescendentes e de aparente disponibilidade para ouvir. Explico: Não é incomum diferentes mulheres feministas criticarem certos pontos do discurso de Castro e receber condescendência ou negação, contrariando seu discurso público de “saber seus próprios privilégios” e “ouvir minorias”.  Sempre que critiquei qualquer texto/discurso de Castro o que recebi foi condescendência. Quer dizer, quem está familiarizado com o termo dismiss em inglês, a ideia é essa: de ser dispensada. Vi o mesmo acontecer inúmeras vezes em espaços de discussão feministas públicos e privados, com outras feministas. Não há diálogo com quem não deseja dialogar, mas ironicamente em público se coloca como pessoa humilde e que ouve.

Ouvir não significa sempre um contexto de diálogos saudáveis. Não significa sempre debates limpinhos. Não sejamos ingênuxs de achar que feminismo (ou qualquer outro movimento social) se constrói num mundo encantando onde falamos e somos ouvidas sempre. Se fosse assim não precisaríamos cotidianamente nos fazer ouvidas à força. Pois é disso que se trata: cansamos de dialogar com quem diz que nos ouve só da boca para fora.

Recentemente, o Coletivo Pretas Candangas postou uma nota diretamente citando a feminista Jul Pagul num episódio de racismo. A atitude de Jul Pagul – para além dos detalhes do acontecido – foi de pedir desculpas e se disponibilizar para ouvir/discutir. A atitude de feministas como Jul Pagul é tão rara, que não tive como não citar aqui como exemplo positivo (e como a postagem é pública na página, acredito que não seja anti-ético).

Alex Castro não é mulher e não é trans*, ele não tem direito de escrever sobre mim. Decerto, a luta não se faz sozinha, precisamos de aliados. Mas precisar de aliados não significa aceitar qualquer um, acriticamente, inclusive quando o aliado em questão não ouve a minoria que alega defender. Estamos cansadas de ativismo da boca para fora, e se nosso ativismo tiver de ser o da Feminista Estraga-Prazeres, que seja. Não estou aqui para que gostem de mim, para fazer ativismo limpinho, estou aqui para emancipar e empoderar mulheres.

O que me leva ao ponto Revista Fórum. Correram boatos que a Revista Fórum havia convidado Alex Castro para escrever. Se foi convite ou ele pediu não vem ao caso, pouco importa, o fato é que foi aceito. Não foi para escrever sobre questões de esquerda no geral, mas para falar sobre minorias. Quem me segue/lê sabe que eu defendo não só a inclusão de homens no feminismo, como tenho zero problemas em ver homens falando do mesmo. A questão não é de Alex Castro ser um homem escrevendo sobre feminismo, a questão é ele escrever e não ouvir críticas das pessoas que ele alega defender. A questão é toda a miríade de descaso e condescendência com que ele trata minorias que o criticam. A carta foi publicada e pergunte se ele sequer entrou em contato para dialogar com qualquer pessoa que a assinou?

Mas pois bem, Alex entrou na Fórum para falar sobre minorias. Sobre nós. E foi justamente nesse momento que nós, mulheres negras e trans*, nos levantamos para contestar. Como poderíamos apoiar que uma pessoa, ainda mais sendo tão mais privilegiada do que nós, falasse sobre nós sendo que nós não nos sentíamos representadas por ela?

Alex Castro não é meu aliado. Não pode ser meu aliado quem deseja meu silencio. Quem não me ouve. Quem não quer construir em conjunto.

Porque, afinal, se ele tivesse vindo dialogar conosco, certamente teríamos abaixado a guarda. É verdade que, no calor da raiva, muitas falaram o que não deviam. Não acho correto, mas como posso julgar aquelas que cotidianamente têm espaços negados, sem emprego e educação, seguidas em lojas e bancos, xingadas e criticadas por tudo, precisando da “caridade” alheia para sobreviver?

Curiosamente, as feministas que o defenderam são todas brancas e cisgêneras, de classe média. São essas mesmas feministas que se calam diante do racismo e da transfobia da colega e tratam como “treta” ou minimizam o impacto da violência. Convido essas feministas a reavaliarem seus próprios lugares de fala em relação às negras e trans*. Quantas blogueiras trans* conhecem em veículos de esquerda de grande circulação? E negras? Ah, mas tem o Blogueiras Negras e a Jarid na revista Fórum, então tudo bem, batemos a cota. O que é meia dúzia (sendo generosa) de blogueiras negras (e praticamente nenhuma trans*) perante o mar de homens brancos cisgêneros que dominam a blogosfera? A discussão aqui é outra, não é do Alex Castro per se, mas de representatibilidade.

Não é de hoje que existem críticas à falta de mulheres (feministas) na blogosfera de esquerda. Quando falamos de machismo, racismo e cissexismo estamos falando de toda uma estrutura social que nos mantem à margem, através da prevenção ou dificuldade de acesso de espaços comumente ocupados por homens brancos e cisgêneros. Então, a carta de repúdio se resumiu a antagonizar a ocupação de um espaço de esquerda por um homem branco e cisgênero que iria falar por nós. Falar POR mim é diferente de falar DE mim. Essa diferença é essencial.

Por que a Fórum não convidou outras pessoas, minorias? Por que se diz defender minorias, mas não se dá espaço para que elas falem sobre si? Por que o espaço é dado a pessoas privilegiadas em relação a nós, que já ocupam todos os outros espaços sociais? Para as feministas que argumentaram que se tratava simplesmente de ir pedir espaço para concorrer com um homem cis branco (as mesmas brancas e cisgêneras que citei, também de classe média), é muito fácil falar quando não precisam literalmente gritar para serem ouvidas dentro do feminismo. Sim, porque para nós, negras e trans*, é necessário que gritemos para sermos ouvidas dentro de um movimento que diz nos representar. Precisamos conquistar os espaços, sempre.

Há muitas pessoas dizendo que nos representam, todavia o curioso é que o espaço para que falemos por nós não nos é dado. Nossa existência só é possível se tutelada por homens e mulheres brancxs cisgêneros.

Se não conseguem ver o quadro geral e o simbolismo que representa essa ocupação, só tenho a lamentar a visão míope que a esquerda feminista tem do que é ser uma minoria, do que é não ter voz, do que é ser tutelada.

Coloquem os textos bonitos, cheio de floreios e humildades para funcionar na prática.

Afinal, estou me perguntando quem realmente está fazendo “webativismo”.

 

A que custo se está defendendo os vagões exclusivos para mulheres?

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No ano passado, escrevi um texto falando sobre o projeto dos vagões exclusivos para mulheres, explicando porque para pessoas trans* a implementação dos vagões seria prejudicial. Recentemente, surgiram vários textos feministas na blogosfera contrários e a favor da medida, especialmente depois que a ANEL e MML postaram sobre, considerando a aprovação do projeto uma “vitória”.

De fato, o feminismo não é um movimento homogêneo – o movimento possui várias divergências, e atualmente uma delas é o vagão. Espero nesse texto reafirmar minha posição contrária e deixar explícito o custo ao qual esses vagões estão submetidos, custo esse não monetário, mas social.

No geral, os textos contrários ao vagão utilizam 6 argumentos gerais: 1) Que o vagão não vai comportar todas as mulheres, visto que estas são maioria demográfica em relação aos homens; 2) Que isolar mulheres por causa de assédio culpabiliza a vítima e não o agressor; 3) Que os vagões não impedem que homens entrem e que uma fiscalização é necessária para mantê-los fora; 4) Que essa medida não combate machismo estrutural e que é uma medida paliativa de pouco ou nenhum efeito; 5) Que as mulheres que não conseguirem, seja por quaisquer motivos, usar os vagões exclusivos e utilizarem os demais não-exclusivos, estarão sob o mesmo risco de assédio amplificado pelo fato de estarem no “lugar errado” e tal assédio ser justificado; e 6) Que as pessoas trans*, mulheres trans* mais especificamente, estarão sob risco de não poderem acessar com segurança tais vagões, dado o histórico já existente de expulsão ocorrido nos vagões exclusivos no Rio de Janeiro.

Resumidamente, esses são os principais pontos abordados por quem é contra a medida. Quem é a favor, argumenta que: 1) A demanda veio de mulheres trabalhadoras, que são as principais afetadas; 2) Não se está defendendo uma medida definitiva, mas provisória; 3) Que as feministas que são contra não oferecem outra solução a curto prazo; 4) Que a medida só funcionará em conjunto com outras que visam combater o machismo, e por isso é comparável com a Lei Maria da Penha ou as Cotas Raciais; 5) Que mesmo se nem todas as mulheres couberem nos vagões, pelo menos algumas estarão seguras e isso já é alguma coisa; E 6) Que os argumentos contrários são “ideológicos” e não refletem a “realidade”.

Não é minha intenção aqui revisitar todos esses argumentos. Posto aqui alguns textos sobre o assunto:

“Porque nós mulheres negras devemos ser contra o vagão rosa”, por Andreza Delgado no Blogueiras Negras.

“O vagão para mulheres só anda para trás”, por Marília Moschkovich no Outras Palavras.

“Vagão para mulheres: segregar não é proteger”, por Clara Averbuck na Carta Capital.

A possibilidade do vagão feminino em São Paulo revela como muito do feminismo ainda está disposto a rifar o direito das pessoas trans*”, por Hailey Kaas no Gênero à Deriva.

Contra os vagões femininos, pelo direito ao espaço público”, por Patrícia Rodrigues e Léa Marques no blogue da Marcha Mundial das Mulheres.

Brevemente, reafirmo que as feministas que defendem o vagão, ignoram que muitas de nós – senão a maioria – também somos usuárias assíduas do transporte público, especialmente Metrô e CPTM e não estamos falando de dentro dos nossos carros. Várias também fazem parte da classe trabalhadora, inclusive as mulheres trans*/travestis que utilizam o transporte público. Venho lembrar que a maioria das pessoas trans* estão em sub-empregos ou no trabalho sexual, porque não acessam o mercado de trabalho. Ademais, apresento o maravilhoso texto que a Marília Moschkovich escreveu no Outras Palavras oferecendo 5 medidas que são alternativas ao vagão exclusivo para amenizar o assédio no transporte público a curto prazo. Vale lembrar também que o problema do assédio não é só machismo, mas também reflete as políticas deficientes, que fazem pouco ou nada para resolver a superlotação do transporte e não oferecem nenhuma solução, quando não pioram o que já era ruim, a saber o escândalo dos cartéis do Metrô.

Mas para além de tudo isso, o argumento de que algumas mulheres se beneficiariam da medida, mesmo que todas não coubessem nos vagões, é verdadeiro. De fato, se pudéssemos aliviar a vida de algumas mulheres, mesmo que inicialmente não fosse possível para todas, isso deveria ser algo considerado. O problema é que não obstante o movimento feminista não ter histórico de se esforçar para englobar todas as mulheres, tendo sempre deixado muitas para trás, a medida além de não englobar todas, prejudica a vida de muitas outras mulheres. Não estou falando daquelas que não conseguirem utilizar o vagão por falta de espaço, ou somente das mulheres trans*. Me refiro aqui à segregação de gênero que os vagões exclusivos promovem.

Vivemos em uma sociedade altamente generificada. Gênero representa nossa própria ontologia e nossa humanidade é fundada pela categoria gênero. Desde os objetos de consumo generificados embasados em uma pseudo-ciência machista que posiciona homens e mulheres em lados opostos, como itens de higiene pessoal, até itens de entretenimento como filmes, brinquedos, Kinder Ovo e Canetas Bic, absolutamente tudo no mundo é feito pensando no binário homem/mulher. As revistas de fofoca já anunciam: “aprenda como os homens pensam”; E as Playboys: “saiba como impressioná-la na cama”. Incontáveis testes e dicas de como você tem que agir para ser socialmente aceita (e ser socialmente aceita em uma sociedade machista é ser/agir conforme os homens esperam que você seja/aja). Entretanto, as revistas “femininas” e “masculinas” são apenas a ponta do iceberg, somente parte do todo mecanismo machista e heterocissexista de reprodução do gênero binário – o Projeto Social de Gênero.

Socialmente, sabemos ou deveríamos saber como uma mulher ou um homem são “fisicamente”, ou “psicologicamente”. Essa estrutura, que é ao mesmo tempo a base e o corpo do Projeto Social de Gênero é o que chamamos de binarismo. É a crença machista e heterocissexista de que homens e mulheres são “naturalmente” diferentes e opostos, que mulheres são sensíveis e homens racionais, que mulheres são assim e homens assado, e assim por diante. Vivemos dia após dia recebendo esse reforço e automaticamente também o reproduzindo. Para que o Projeto Social de Gênero funcione, ele tem que contar com a participação de todxs. O machismo não é simplesmente uma estrutura de dominação, ele também se alimenta da ideia da diferença, do corpo estranho, do “segundo sexo”, das pessoas que são tão alienígenas e tão distantes que existe um planeta de distância entre elas. E é justamente por isso que os vagões são muito mais do que uma medida paliativa. São muito mais do que uma medida que potencialmente ajudam certo número de mulheres. Os vagões fazem parte do Projeto Social de Gênero, fazem parte da ferramenta de regulação dos gêneros. E para quem acha que estou falando a partir de um ponto de vista puramente metafísico, os danos dessas políticas têm se manifestado há anos. Mulheres e homens cis com aparência não-conforme ao (cis) gênero; Mulheres e homens trans* e pessoas não binárias, cotidianamente violentadxs verbalmente e fisicamente porque não estão adequadxs à norma. Mulheres lésbicas masculinizadas, homens gays afeminados. Mulheres e homens trans*/travestis que não “passam” expulsxs dos vagões, recebendo olhares intimidativos e convidativos a se retirar do ambiente. Os mesmos mecanismos de assepsia social, as mesmas táticas de expulsão que experimentamos diariamente, reproduzidas e reforçadas aqui. Trata-se de ajudar algumas mulheres, em detrimento de muitas, muitas outras, que além de sofrerem diariamente o assédio, também sofrem com o policiamento de gênero. O mesmo policiamento de gênero o qual os vagões serão uma forte ferramenta.

E quem vai pensar nessas pessoas? Já diria Preciado, quem cuida da criança queer? As feministas a favor do vagão argumentam que posteriormente o movimento lutará para a inclusão e proteção dessas mulheres que a priori ficarão de fora, principalmente mulheres trans*. Contudo se eu não posso confiar no movimento nem sequer para me tratar com o mínimo de respeito, a saber das feministas que aparentemente acham que transfobia é a nova moda do momento, muito menos eu confiaria meu destino ao movimento, infelizmente. Foram dois árduos e duros anos para que [parte d]o movimento reconhecesse o transfeminismo, e até hoje as feministas cis são bastante leigas em relação às questões trans*. Então, sinto muito se não confio na sua anunciada boa-vontade em lutar por mim, enquanto fecha os olhos para a transfobia dentro do próprio movimento. Além disso, o que se espera fazer para incluir mulheres trans* nos vagões? Supondo que fosse incluída na lei uma proteção especial, não decorre daí que na prática as mulheres trans*/travestis não fossem expulsas. Para mim isso é muito claro uma vez que sem fiscalização os homens entram nos vagões femininos, no Rio. A lei sozinha não faz magicamente a transfobia acabar, como não impede automaticamente os homens de entrarem no vagão feminino.

Por fim, acredito que o impacto da violência cissexista e binarista, que regula e policia os gêneros não está sendo devidamente considerado ou está sendo minimizado. Aliás, é essa mesma ideia que alimenta não só a premissa da segregação, mas também a ideia de que são as mulheres que têm de ser separadas. Por que não um vagão dos homens? Por que o direito de ir e vir das mulheres deve ser comprometido em função de uma violência que nem são elas que perpetram, em sua maioria?

Sobretudo: por que prejudicar a vida de muitas, sendo que poucas se beneficiarão com a medida (inclusive demograficamente)?

Mas, para além de discutir uma hierarquização criada talvez inintencionalmente por quem defende o vagão, devemos nos perguntar a que custo se está defendendo o mesmo.

Breve guia sobre criação e gestão de espaços seguros

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[Aviso de conteúdo: esse texto usa termos potencialmente desconfortáveis para algumas pessoas, como exemplos de ofensas].

Antes de mais nada, devo dizer que esse texto não se quer uma cartilha que deve ser seguida à risca, muito menos se quer um material definitivo sobre o tema segurança e espaços seguros. Esse texto surgiu da minha inquietação tanto como participante de espaços que se pretendiam seguros, mas que falharam em determinadas circunstâncias, quanto da minha experiência como administradora de vários espaços na internet.

Primeiramente, devo dizer que espaços seguros não existem. Embora minha afirmação pareça díspar com o título (e o propósito) desse texto, o que quero dizer é: não há como criar um ambiente 100% seguro para todas as pessoas evolvidas, sempre. Mas isso não quer dizer que nós não vamos tentar o máximo possível fazê-lo!

Acho importante pontuar isso, para não nos iludirmos com idealismos fadados ao fracasso no que diz respeito à criação de espaços seguros, ao mesmo tempo em que devemos fazer o nosso máximo para que os espaços que criamos/gerimos sejam seguros.

Por gerir, eu quero dizer toda ação de moderação, facilitação, controle, e/ou similar que uma pessoa possa exercer em um grupo. Eu não acredito na horizontalidade de grupos – pelo menos não na “pureza” dessa horizontalidade.  Acredito que de uma forma ou de outra, eventualmente, sempre haverá aquelxs que dominarão os espaços consciente ou inconscientemente. Em minha opinião, alguns espaços que se denominam horizontais, mais pela inexperiência e idealismo (em relação à horizontalidade) do que pela horizontalidade em si, permitem uma miríade de violências frequentes que não são enfrentadas e que são por vezes até silenciadas.

Dito isso, eu escrevi algumas ideias/passos que eu busco e procuro utilizar na gestão dos espaços:

1)    Você percebe, como participante ou como gestor/x, que o espaço consiste de somente (ou em sua maioria) de pessoas ativistas/de esquerda/militantes/minorias etc.?

Essas pessoas não irão garantir a segurança do grupo, contudo, se o ambiente reúne – por acreditar em um tipo democracia onde todxs têm voz (inclusive para oprimir) – pessoas reacionárias, fundamentalistas e afins, isso trabalha para transformar o espaço em um lugar hostil e cheio de opiniões preconceituosas contrárias ao objetivo/tema do grupo. Se já sabemos que determinadas pessoas pensam determinadas coisas (como, por exemplo, quem é contra o aborto estar em um espaço feminista) não há porque mantermos esse tipo de pessoa no ambiente, pois o argumento de uma suposta democracia não pode sobrepor à segurança de minorias que cotidianamente são violentadas em outros espaços. Lembre-se: seu espaço se quer seguro e é para/por pessoas marginalizadas.

2)    Sendo todas pessoas ativistas, essas pessoas estão interessadas no tema do grupo, em se educar sobre sua própria militância e, inclusive, a de outras minorias?

Eu acredito no educar-se sempre, em todos os assuntos, especialmente se temos plataforma na internet (ou fora dela) para veicularmos nossas opiniões. Precisamos pensar sempre no melhor, para melhor, com o melhor. Isso quer dizer que como participante de um espaço de militância negra, por exemplo, é imprescindível nos educarmos sobre questões da identidade negra. Porque somos responsáveis por tudo o que veiculamos, desde a conversa no bar até aquela entrevista famosa na mídia. Todos os nossos discursos produzem efeitos, e queremos que esses efeitos sejam positivos, certo? Quando vemos – como gestor/x(s) – que existem participantes pouco interessados no tema do grupo, que não participam (e não participam nem passivamente, como leitorxs), não constroem nada de fato, isso é um sinal que essa pessoa não deveria estar nesse espaço. Se a pessoa não se interessa pela sua luta, dificilmente irá se importar com você e sua identidade enquanto pessoa marginalizada.

3)    Uma pessoa oprimida usa sua própria opressão para oprimir outrxs?

Esse é o ponto mais importante e também o mais difícil. Como identificar? Como lidar? Bom, minha experiência é que: não há como manter, sob hipótese alguma, pessoas que estejam ofendendo outras mesmo que o grupo represente a identidade dessa pessoa. Já removi várias pessoas trans* do grupo transfeminismo por incorrerem em racismo, machismo, classismo e inclusive transfobia. Espaços seguros não podem dialogar com pessoas que usam de sua própria condição para desqualificar outras. Lembre-se: manter uma pessoa de uma identidade marginalizada no grupo a custo da segurança de outro grupo marginalizado é hierarquizar opressões.

3.1) Essa pessoa que está oprimindo outras, tem uma receptividade em relação a eventuais críticas, seu discurso está indo em direção à ignorância ou em direção à violência?

Quer dizer: Você percebe que a pessoa está ali em uma posição destrutiva, com argumentos violentos e premissas preconceituosas, ou ela “escorregou”, falou bobagem, porém por pura ignorância? Isso é importante de se perceber. Exemplos em espaços feministas são clássicos: Se um homem chega num tópico com argumentos desqualificadores, usando termos já reconhecidos no meio feminista (como “feminazi”, por ex.), já podemos perceber que o comportamento de tal pessoa não parte de ignorância e sim de violência. A pessoa não quer construir e sim destruir. Logo, deve ser removida e suas mensagens apagadas. O mesmo ocorre com outras pessoas militantes (incluindo aí mulheres) que incorrem em racismos, transfobias, classismos, capacitismos, gordofobias, machismos e afins. O exemplo do homem se resume pela frequência, mas não nos esqueçamos de que infelizmente há feministas transfóbicas que aparecem nos espaços (trans)feministas para desqualificar.  Um espaço seguro feminista não deve eleger em primeiro lugar o status feminista e nem de mulher da pessoa (seja cis ou trans*), deve levar em conta o que essa pessoa está dizendo e se está ofendendo outra minoria.  A ação sempre deve ser analisada, caso contrário estaremos sob o risco de atenuar certas violências em prol de uma suposta união que, na prática, não existe. O espaço deve ser seguro para todxs, e não só para algumas pessoas que julgamos mais merecedoras do que outras.

4)    O grupo é aberto, fechado ou secreto (no FB)? Controle de quem entra no grupo é essencial.

Controlar quem entra no grupo é bem trabalhoso, requer paciência e atenção. Mesmo no grupo transfeminismo com certeza (e sabemos) existem pessoas que agem de má-fé e tiram PS (print screen – capturas de tela) de relatos pessoais e tópicos específicos para postar em outros espaços. Esse tipo de ação coloca em risco a vida dxs participantes, especialmente se forem trans*, pois estamos falando de pessoas que frequentemente tem de esconder da sociedade que são trans* para não serem expulsas de casa ou perderem o emprego, até então conseguirem certa independência para se assumirem livremente. Isso ocorre principalmente com adolescentes trans*. Infelizmente, existem certas feministas (transfóbicas) e grupos masculinistas que defendem como modus operandi ativista vazar informações pessoais de pessoas trans*, chegando ao ponto de entrar em contato com os pais/empregadores e revelar o status trans* da pessoa. Não preciso repetir que isso coloca a vida da pessoa em risco, como eu disse acima. Dito isso, é preciso fazer um trabalho cuidadoso que inclusive envolve observar o perfil dessas pessoas (caso o espaço seja físico, observar as atitudes/posições da pessoa em outros espaços sociais que costuma ser quase sempre na internet), observar o que postam, o que dizem, como se posicionam.

Ocorreu frequentemente de várias pessoas estarem no grupo, se manifestarem pouco ou nem se manifestarem, e depois descobrirmos que tais pessoas mantinham posições que iam de oposto ao que o grupo defendia. Não sou adepta dos modelos que defendem que para expulsar uma pessoa ela deve somente manifestar o preconceito dentro do grupo. Acredito que uma pessoa que é preconceituosa em relação a uma minoria e participa de um grupo que defende direitos de tal minoria não está lá para se educar ou empatizar e sim procurando uma oportunidade de por em prática suas violências. Isso tem que ser observado inclusive (especialmente) se a pessoa é preconceituosa com uma minoria que não é a mesma que o grupo se propõe a militar. Por exemplo, em um grupo feminista uma pessoa sendo racista (ao invés de machista, o que seria esperado); e/ou uma pessoa sendo machista em um grupo de militância negra; e/ou uma pessoa sendo gordofóbica em um grupo de ativismo trans* etc. Ou seja: como dito, a segurança tem que se estender a todxs, seja a pessoa parte da mesma minoria que eu ou não.

Em suma: sempre dê aquela checada no perfil da pessoa, observe se a pessoa tem perfil falso[1] (fake) ou tem mais de um perfil na mesma rede social. Recorra a amigxs em comum com a pessoa: descubra se alguém a conhece pessoalmente ou se sabe de alguma coisa sobre ela. Construir um espaço seguro significa saber (na medida do possível) o que a pessoa faz fora do grupo para prevenir potenciais violências. Um homem que se diz feminista, mas curte páginas como “Orgulho de ser Hétero” ou chama mulheres de “vadias” em conversas com amigos, claramente é um indicador de que não cabe em um grupo feminista. Grupos secretos são mais fáceis de controlar, pois o fluxo de membrxs é menor. Certos grupos alegam que não “fiscalizam” o que xs membrxs fazem fora do grupo. Isso coloca em risco a segurança do grupo, pois muitas pessoas têm determinadas atitudes dentro do grupo, e outras contrárias fora dele. A velha hipocrisia deve ser combatida, pois é um forte indicador que a pessoa não acredita em nada do que está sendo reivindicado ali.

5)    Não rife certas minorias em prol de outras; não silencie denúncias de violência em prol do “todo”

Esse último ponto é um reforço do item 3 e 3.1: Não permita que certas pessoas perpetrem violência dentro do seu grupo porque essa pessoa também é parte de uma minoria marginalizada. No fim das contas você hierarquiza opressões e a mensagem que você passa é: “não me importo com X minoria marginalizada porque a luta da minoria Y que eu defendo é mais importante.” Cria um clima onde só certas pessoas de certas identidades participam, pois expulsa sumariamente as vítimas das violências perpetradas dentro do grupo, que não irão se sentir seguras/confortáveis em compartilhar espaço com agressorxs. Ainda preciso preparar um texto específico sobre expulsão simbólica de pessoas trans* de espaços feministas, pois aqui ainda cabe muito pano para manga.

Lidando diretamente: Ações de gestão imediatas

O que fazer quando você vê alguém sendo violento? Se o grupo dispõe de outrxs gestor/x(s), vai da percepção (e bom-senso) verificar se há a possibilidade de esperar para debater a expulsão dx(s) membrx(s) e de suas respectivas mensagens, ou de expulsar na mesma hora. Uma pessoa que num grupo feminista ofende outra com o termo “vadia” (e persiste), para mim não há dúvidas que ela deve ser eliminada imediatamente. Lembre-se que depois você pode readicioná-la caso seja uma briga pontual, ou caso você perceba que a pessoa se arrependeu e apenas “escorregou”. (considerando SEMPRE que a minoria ofendida esteja de acordo em compartilhar espaço e tenha se entendido/perdoado/afins a pessoa que perpetrou a violência). O importante é eliminar a violência o quanto antes, e não debater se aquilo foi uma violência ou não. Não trate violências como “tretas” pessoais, o ocorrido pode ser pessoal, mas a terminologia e argumentos usados frequentemente visam desqualificar as vítimas nos termos de suas identidades. Não é à toa que o exemplo acima do “vadia” é uma ofensa comum que é utilizada em brigas de todos os tipos, mas isso não faz do termo e do uso do mesmo algo menos machista.

Meu problema com grupos horizontais é que frequentemente deixam várias violências seguirem fluxo por muito tempo, pois perdem tempo debatendo, por exemplo, se chamar uma mulher trans* de “homem de batom e de saia” é transfobia. Premissas preconceituosas não podem ser toleradas, pois ninguém discute (ou não deveria) se chamar mulheres de vadias é machismo. Todxs nós ativistas temos certa noção do que é violento, mas vejo que certos grupos julgam certos preconceitos mais violentos do que outros – e isso é hierarquizar opressões, como eu tenho repetido. Não fique discutindo se X coisa foi violenta: elimine o comentário, remova a pessoa e depois informe aos/às demais gestor/x(s). Cada gestor/x deve ter autonomia para identificar e remover violências sem a burocratização de “votos” e afins, ou a espera eterna em uma lista de discussão por e-mails. Pense que enquanto você e outrxs gestores decidem, pessoas continuam sofrendo violência e isso é inaceitável. Dependendo do ocorrido, como por exemplo, (homens, sempre exemplos clássicos…) homens reclamando de espaços exclusivos ou relativizando estupro, se xs gestorxs estiverem disponíveis online é possível debater rapidamente. Eu costumo dar uma margem de 10-15 min depois de chamar outrxs gestorxs no chat. Se ultrapassar esse tempo, tomo a ação e depois informo. O importante é sempre prestar contas, pois mesmo que haja autonomia de gestão, não se deve perder de vista que todxs nós erramos. Geralmente a criação de diretrizes pode ser um bom norteador se você quiser manter uma certa ética sob sua gestão e a gestão de outrxs. Por esse meio é possível julgar caso haja gestorxs que abusem do poder/tomem ações não condizentes com o grupo.

Por fim: falei pouco de espaços físicos, mas devo deixar claro que dentro da minha militância, considero pouquíssimos espaços físicos como seguros. Isso acontece quase sempre porque o espaço deixa ocorrer transfobia sem sanções e/ou com burocratizações/soluções inúteis, que de nada servem para tornar o espaço seguro/receptivo para uma mulher trans*, gorda e queer, como eu. Quando você se deparar com um convite para adentrar um espaço físico, verifique se esse espaço tem diretrizes, se as cumpre, se já ocorreu casos de violência no espaço e como lidaram com isso. Saber como o espaço lidou com violências é sempre uma boa baliza para saber o que será feito caso você também sofra violência dentro do espaço. Quase sempre, infelizmente, as pessoas minimizam microagressões e silenciam relatos de violência. Lamentavelmente, para muitos lugares ainda há muito chão para se tornarem seguros. Isso inclui o grupo transfeminismo que, apesar dos meus esforços (e de todxs xs outrxs gestorxs) continua sendo ocupado por feministas transfóbicas que colocam nossa vida em risco – o que não quer dizer que eu não vá continuar trabalhando para deixar o espaço mais seguro possível.

Gostaria muito de ouvir sugestões e acréscimos sobre esse tema (espaço seguro), pois com certeza esse breve texto não abordou muitas situações. Espero que possa melhorá-lo com a ajuda de todas as pessoas que desejam construir um feminismo melhor e mais ético.

[1] Muitas pessoas trans*, como dito, precisam de anonimato, pois não podem se revelar trans* em seu círculo social. Por isso, muitas delas recorrem a perfis falsos para conseguirem se afirmar/identificar como trans*. Vai do bom-senso identificar tais perfis, inclusive conversar com a pessoa. Mas como não temos como saber, infelizmente, é bom ter cautela extra, especialmente em relação ao que tais pessoas fazem/falam fora do grupo.

Terrorismo cissexista, Transeugenia e expulsão simbólica de pessoas trans* de espaços feministas

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“Onde estão os sujeitos que transitam entre os gêneros ou que reivindicam legalmente a passagem de um gênero para outro? Paulatinamente começam a desaparecer da vida pública para serem encontrados nos compêndios de medicina e nos espaços confessionais das clínicas. O sistema binário (masculino versus feminino) produz e reproduz a ideia de que o gênero reflete, espelha o sexo e que todas as outras esferas constitutivas dos sujeitos estão amarradas a essa determinação inicial: a natureza constrói a sexualidade e posiciona os corpos de acordo com as supostas disposições naturais.” Berenice Bento – O que é Transexualidade.

Nos confins das clínicas, nas ruas escuras, nos telemarketings, nos salões de cabeleireiro, nas palestras das pessoas Antropólogas famosas, servindo de “campo”; é lá encontraremos as pessoas trans*: nos espaços sociais que nos são reservados: espaços de análise/estudo, espaços clínicos, espaços onde não somos visíveis aos olhos das “pessoas de bem”.

Desde que o Transfeminismo ganhou força no país, cresce um forte sentimento anti-trans* dentro dos espaços feministas da internet, principalmente do FB. Malabarismos teóricos são feitos para justificar a exclusão de mulheres trans* dos espaços das “mulheres nascidas mulheres” ou “fêmeas”: surgem os velhos argumentos da socialização robótica, ecos de um projeto falido liderado pelo Dr. Money cuja prática custou a vida de uma pessoa intersexo (cf. David Reimer no google). Quando não evocam a falsa socialização universal das mulheres cisgêneras, evocam os argumentos biológicos já conhecidos pelas feministas que lidam com a “ciência” machista, a qual direciona seus esforços para condenar a mulher ao papel de provedora através da essencialização do útero, ou à imagem de vaginas ambulantes (o termo pejorativo e misógino “depósito de porra” ilustra bem o perigo desse tipo de abordagem). Há formas de abordar biologia sem cairmos em essencialismos perigosos, e há formas de abordarmos teoria social sem cairmos em determinismos sociais. O ponto principal não é a teoria, pois quaisquer que sejam as premissas teóricas, distorcem-nas para servir-lhes como embasamento de uma teoria geral da mulher que não inclui mulheres trans*. E, ainda que muitas feministas (radicais) digam com todas as letras que o feminismo não deve incluir pessoas trans*, recusam o termo TERF (trans exclusionary radical feminism [feminismo radical trans-excludente]), cunhado por uma colega feminista radical, inclusive. Algumas ainda dizem que não teriam em sua identificação feminista (feminista radical) nenhum “macho” (referindo-se ao trans exclusionary[TE] na frente do feminista radical [RF]).

Não consigo explicar porque tanto ódio e aversão. Prefiro citar Julia Serano:

“Nenhum tipo de qualificação deveria ser imposta no termo “mulher trans” com base na capacidade de uma pessoa em “passar” como mulher, nos seus níveis hormonais ou na configuração de seus genitais – até porque, é um sexismo óbvio reduzir qualquer mulher (trans ou outras) somente às suas partes corporais, ou exigir que ela viva de acordo com certos ideais ditados socialmente no que diz respeito à aparência.” Julia Serano – Whipping Girl. Tradução Hailey Kaas.

A expulsão simbólica das mulheres trans* de grupos feministas tem decorrido do Terrorismo Cissexista, como bem colocou um colega. Advoga-se ativamente pela nossa expulsão com argumentos considerados legítimos e “não-transfóbicos”, distorcendo teorias para servir a fins de uma eugenia trans*. Quando expostas, essas feministas se colocam no papel de vítimas incapazes de reproduzir opressão. Usam feminismo e sua própria condição de mulher como escudo para se desresponsabilizarem e, consequentemente, legitimar seu projeto de transeugenia nos espaços feministas. Reproduzem aí a ideia de mulher vítima passiva e sem agência/controle dos fenômenos sociais. A assepsia social realizada/advogada por essas feministas é plenamente justificável sob o pretexto de que somos, na realidade, homens enganando o movimento para nos apropriarmos do mesmo. Para essas feministas, transfobia existe na forma de violência direta (física/assassinato) cometida por homens cis “patriarcais”. Contudo, ignoram que são agentes no referido processo de assepsia social, abrindo o caminho através do terrorismo cissexista para que seus colegas homens transfóbicos “terminem o serviço”. Nossa morte começa, então, já bem antes dos esquartejamentos ou fuzilamentos.

Nesse ponto, devo dizer que há uma divisão machista do projeto de transeugenia: as mulheres operam em sua maioria discursivamente, convencendo suas interlocutoras (em geral outras feministas) que somos “homens perigosos” “estupradores” “pedófilos” e afins, caracterizando nossa tão sabida política de extermínio social “bandido bom é bandido morto” (se somos estupradores, então devemos morrer), corroborado por um feminismo de/para mulheres direitas – aquelas merecedoras de empatia, as “fêmeas” (brancas); enquanto os homens dão conta de realizar os assassinatos, sujando suas mãos no trabalho físico que essas mulheres não têm coragem de externalizar. Um fornece a justificativa do extermínio e outro trata de realiza-lo em vias práticas. Mesmo quando as “vias de fato” não chegam a nós, é possível notar como há a promoção do mesmo terrorismo a fim de nos levar indiretamente ao suicídio. A práxis do terrorismo cissexista é, assim, incorporado por parte do feminismo.

Nem tudo é ruim:

Seria injusto terminar esse texto falando sobre uma parte do feminismo que, embora pequena, seja muito vocal na demanda de nosso extermínio. Nesses últimos anos de ativismo encontrei muitos grupos de feministas, especialmente de mulheres negras, que acolheram mulheres trans* e compraram nossa briga por inclusão. Há diversos coletivos espalhados pelos estados do Brasil que são empáticas em relação às mulheres trans*. Se eu fosse citar nomes, certamente deixaria alguém de fora. Com isso, há esperança no fim do túnel e estou positiva que resistiremos com a soma de nossas colegas feministas. Porém, precisamos urgentemente denunciar as práticas transeugênicas e combater essa assepsia social realizada por poucas feministas influentes. Não podemos nos calar e deixar que o ódio manche nosso feminismo que deveria ser – sempre – um espaço de inclusão e não exclusão. Convido a todas as pessoas – cis e trans* – a denunciarem e não se calarem quando virem algum comportamento desse tipo.

Não me calo; Não nos calaremos: pessoas trans* de todo o mundo uni-vos para combater nossa própria extinção.

Abaixo ao Terrorismo Cissexista!

P.S Diálogo e postura educativa nós temos com pessoas ignorantes, refiro-me aqui a pessoas que sabem muito bem que estão fazendo e objetivamente pedem nossa exclusão.

Assédio e estupro de mulheres negras e trans*: Continuamos a ser consideradas menos humanas

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Precisarmos de uma campanha para dizer que mulheres não merecem ser estupradas é, como eu costumo dizer, de cair o cu da bunda.

Segundo uma pesquisa do IPEA que está rodando nas redes sociais, 65% das pessoas acha que mulheres merecem ser atacadas (eufemismo para estupradas) por usarem roupas curtas.

A premissa feminista a qual sempre reforçamos, é a ideia de que respeito deve ser autossuficiente, ou seja, não pode haver pré-requisitos para respeitarmos uma pessoa. Certamente, a “quantidade” de roupa que uma mulher usa jamais deveria ser usada como critério para respeitar a autonomia de seu corpo. Isso sempre esteve bem claro (para o feminismo) desde o início. Mas o que cria essa permissividade misógina é muito mais do que um simples machismo “homem pode e mulher não pode” – o machismo nunca é simples – especialmente quando estamos falando de mulheres que socialmente são vistas como menos dignas em função de suas particularidades identitárias.

Quando falamos em assédio e estupro a partir de uma perspectiva feminista, imaginamos geralmente uma população de mulheres uniformes, geralmente brancas, cisgêneras e de classe média. Porém, duas coisas devem ser analisadas: o fato de que as mulheres negras (ainda) são “a carne mais barata do mercado”, historicamente forçadas a servir sexualmente seus senhores, e as mulheres trans*, cuja permissividade autorizada pela ciência materializa-se nas perguntas sobre nossos genitais/configuração corporal, perguntas essas vistas como naturais e esperadas.

As mulheres negras continuam a ser vistas como não-pessoas, desumanizadas em função de sua identidade negra, mulheres cujas existências tem a única função de servir sexualmente os homens cis brancos, já que “mulher para casar” só pode ser branca (e cisgênera). Sabemos como a mulher negra é hipersexualizada, vista como mais sexualmente “permissiva”. É isso que autoriza o assédio direcionado a essas mulheres, pois seus corpos não são apenas públicos, são também menos humanos. A autoestima das mulheres negras é uma pauta recorrente na militância feminista negra, especialmente em relação a como muitas mulheres negras são levadas a um consentimento fabricado (não só sexualmente, mas de outras ordens também) para com seus companheiros, com medo de serem trocadas pelas brancas.

Posso dizer que há muitas similaridades em como os corpos trans* são vistos, pela mesma lógica misógina – aqui não atrelada ao racismo, mas sim à transfobia. Nossos corpos, especialmente os das mulheres trans*, são vistos como menos reais e consequentemente menos humanos. Se forem mulheres trans* e negras é ainda pior. A situação é tão crítica que em alguns países estuprar uma mulher trans* não é considerado crime, pois mulheres trans* “não podem ser estupradas”. A invasão psicológica dos nossos corpos autorizada pela ciência, também é uma invasão física: são incontáveis as histórias de assédio, inclusive advindo de homens cis gays. Esses homens tocam (eufemismo para apertam com força) em nossos seios e em nossos genitais como se fosse algo natural. Afinal, nossos corpos estão abertos ao escrutínio público. Somos ainda as cobaias das clínicas – nosso “habitat natural”.

A pergunta que temos que fazer é: o que fazemos quando mulheres trans* são estupradas? Para onde recorremos?

Está na hora de demandarmos respeito e mecanismos de proteção contra o assédio que sofremos. Está na hora de desautorizarmos a ciência e passarmos a ser detentorxs de nossos corpos e identidades.

Está mais do que na hora de enegrecermos nosso feminismo e de levarmos em conta as questões das mulheres trans*.

*Este texto também está disponível no meu site pessoal

Descentrando o sujeito do feminismo; Desuniversalizando as mulheres: Considerações sobre feminismo e visibilidade trans*

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O que faz com que nos encontremos na categoria chamada “mulher”, que é acionada sempre que precisamos demandar direitos básicos? O que nos une? Qual é o elemento essencial (caso exista) pertencente a todas nós, que nos faz identificarmos com essa categoria?

Nessa semana da visibilidade trans*, gostaria de focar na questão da categorização universal da mulher, crítica tão cara ao feminismo e um problema essencial para algumas mulheres: mulheres trans* – transexuais, travestis, transgênero e/ou outrxs.

Por muito tempo, se lançou mão da biologia em seu modelo dimórfico de pensar os corpos, para classificar os sujeitos em “2 sexos”. A ideia de 2 sexos remonta, no entanto, do final do séc XVIII endossado fortemente pelo nascimento da medicina moderna no fim do XIX e começo do XX. Lá, também nasce a “transexualidade” como categoria clínica. É curioso notar que, ao mesmo tempo que o modelo de corpo se binarizou, o trânsito de gênero se tornou um problema de ordem da saúde pública, mais especificamente mental. Decorre daí que em uma sociedade não baseada na ideia de “2 sexos” distintos, dicotômicos e opostos, o trânsito de gênero não possui o mesmo estigma psiquiátrico que em nossa sociedade. Isso não previne outros problemas, mas o que quero dizer é que a ideia da transexualidade como um transtorno mental é uma construção da medicina moderna apoiada numa concepção binarista de corpo. Não obstante a própria biologia se enrolar quando encontramos um índice alto de pessoas intersexo, desmontando o mito da exceção, continua-se a manter a transexualidade como doença mental, transtorno e continua-se a considerar que corpos com configurações “naturais” de “sexo” são mais legítimos do que outros.

O que é natural? Ou melhor, nossa percepção do natural é uma ferramenta segura para filtrar as coisas do mundo?

Certa vez, muitos anos atrás quando fiz um curso de Introdução à Epistemologia, lembro de um texto do Platão onde ele fazia referência à percepção como um elemento inseguro de categorização das coisas do mundo. Quem está familiarizado com Platão deve lembrar do “remo quebrado na água” e o “navio que parecia pequeno ao longe”. São princípios básicos quando questionamos a percepção, e são a base para a Semiótica. Nossa percepção é mediada, é contextual/histórica. Se juntarmos isso ao contexto histórico acima, temos então uma primeira tese sobre a (não) legitimidade de todos os corpos.

Por que o elemento pênis está associado com homem e masculinidade? Por que o elemento vagina está associado com mulher e feminilidade? De onde vem essa ideia de que há uma essência de gênero atrelada ao sexo que faz sermos “homens” ou “mulheres”? E, principalmente, se essa essência é universal, porque existem pessoas que recusam?

A quem interessa manter uma rígida distinção binária entre os “sexos”? Não são essas que criam estereótipos negativos? Homem não chora; mulher sim. Homem não cozinha; mulher sim. Homem é racional; mulher emotiva. Etc.

Se o machismo é social, se a ideia das mulheres como inferiores aos homens é uma construção perversa de uma sociedade com um sistema de sexo/gênero, se concordamos que “ser mulher” é algo subjetivo e constantemente capturado pelos discursos machistas, se entendemos que o tempo todo somos definidas em relação ao Outro, considerado mais legítimo, porque ainda não superamos a ideia transfóbica de mulheres trans* como um engodo, uma farsa, algo ilegítimo? Ora, se ser mulher deve ser exaltado, empoderado, se nós mulheres temos de nos emancipar e empoderar, se a mulheridade é algo a ser celebrado, porque há certos feminismos que excluem mulheres trans*? Porque recorrem ao discurso da essência, tão prejudicial para as mulheres como nos mostrou a história (uma rápida remissão lembrará como mulheres eram consideradas essencialmente histéricas, fisicamente e intelectualmente inferiores, etc. – aliás não é preciso nenhuma remissão, basta uma googleada em artigos “científicos” atuais).

Mas eu vou mais além: por que a ideia de essência é algo indispensável no feminismo, e consequentemente para as mulheres? Se minha colega mulher está sofrendo machismo, interessa se ela tem XX ou XY (ou várias outras configurações cromossômicas), pênis ou vagina, se nasceu assim ou assado? Aliás mesmo se mulheres trans* consideradas homens por um feminismo transfóbico estivessem sofrendo machismo, ainda assim não seriam sujeitos passíveis de defesa? Por que defendemos umas e nos omitimos com outras? E se homens e mulheres reproduzem machismo, como sabemos, porque é diferente quando uma mulher trans* reproduz machismo, porque ela também não é vítima como mulheres cisgêneras (não-trans*)?

Essa diferenciação decorrente da ideia de essência é a base para a transfobia. É a base para o cissexismo. É a base para a ideia de que certas mulheres merecem mais empatia e mais defesa do que outras. Nossos corpos e identidades são desumanizados e destituídos da categoria mulher, porque a tal “essência” diz que não somos. E como tal, não somos objetos de empatia. Enquanto isso, além de sofremos o machismo cotidiano direcionado a todas as mulheres, justamente por causa dessa mesma ideia de essência defendida por certos feminismos, sofremos transfobia. Somos assassinadas por sermos “falsas mulheres”. Morremos por falharmos no “ser mulher” machista reforçado justamente por esses certos feminismos. Se nos depilamos, nos maquiamos, usamos vestidos ou outros símbolos considerados femininos, somos acusadas de reforçamos machismo; se não fazemos nada disso, então somos acusadas de não estarmos tentando o suficiente “ser mulher” e, logo, isso “prova” que somos homens. Nunca vencemos o jogo da cisnorma.

A universalização da categoria de mulher só é útil quando pensamos em demandas políticas. Para eu sentir empatia pela colega, ela não precisa ter a configuração morfológica igual a minha, muito menos ter elementos identitários iguais aos meus. Basta estar sofrendo machismo (e o foco aqui em machismo não exclui, naturalmente, a defesa contra outras discriminações). Essa é a tal da sororidade que falta no feminismo.

Não somos iguais. Somos diferentes. E sofremos diferentes discriminações. A única coisa que nos une é o fato de todas nos identificarmos como mulheres. Reconhecer que somos diferentes em nada prejudica a luta, pelo contrário: fortalece.  Precisamos descentrar o sujeito do feminismo como a mulher universal que mantêm laços essenciais com outras mulheres. Desuniversalizar a categoria irá evidenciar nossas muitas diferenças; e diferenças não nos enfraquecem, pelo contrário as diferenças é o que faz sermos únicas, é o que concede a complexidade ao “ser mulher”, caso contrário corremos o risco de cairmos no machismo do “mulheres-são-todas-iguais”. Diferenças devem ser celebradas e não silenciadas.

Por fim, lembro aqui que quando elegemos um modelo de uma mulher como universal, necessariamente esse modelo é construído com base em exclusão de outras. E essas outras frequentemente costumam ser mulheres marginalizadas: mulheres negras, trans*, não-heterossexuais, pobres, gordas, com deficiências etc.

Nessa semana da visibilidade trans*, eu quero celebrar nossas diferenças. Quero lembrar que somos mulheres – diferentes mulheres – mas somos todas mulheres. Nossas vivências são distintas, nossas experiências divergentes. Não somos iguais. Não somos universais. Não partimos de um mesmo centro. Somos mulheres.

Agenda Transfeminista: próximos eventos

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Enquanto meu texto do dia da visibilidade trans* não sai (sairá amanhã :D ) gostaria de lembrar que no sábado, dia 01/02, estarei em uma mesa sobre questões trans*/transfeminismo a convite do Coletivo Contra Maré, juntamente com outrxs participantes.

O evento é gratuito.

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Logo depois, dia 03/02, a convite de Marília Moschkovich, estarei junto com Jéssica Ipólito num encontro sobre Feminismo Negro e Transfeminismo no espaço oGangorra.

O encontro será pago, mais informações aqui: http://cinese.me/encontros/feminismo-negro-transfeminismo