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Assédio e estupro de mulheres negras e trans*: Continuamos a ser consideradas menos humanas

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Precisarmos de uma campanha para dizer que mulheres não merecem ser estupradas é, como eu costumo dizer, de cair o cu da bunda.

Segundo uma pesquisa do IPEA que está rodando nas redes sociais, 65% das pessoas acha que mulheres merecem ser atacadas (eufemismo para estupradas) por usarem roupas curtas.

A premissa feminista a qual sempre reforçamos, é a ideia de que respeito deve ser autossuficiente, ou seja, não pode haver pré-requisitos para respeitarmos uma pessoa. Certamente, a “quantidade” de roupa que uma mulher usa jamais deveria ser usada como critério para respeitar a autonomia de seu corpo. Isso sempre esteve bem claro (para o feminismo) desde o início. Mas o que cria essa permissividade misógina é muito mais do que um simples machismo “homem pode e mulher não pode” – o machismo nunca é simples – especialmente quando estamos falando de mulheres que socialmente são vistas como menos dignas em função de suas particularidades identitárias.

Quando falamos em assédio e estupro a partir de uma perspectiva feminista, imaginamos geralmente uma população de mulheres uniformes, geralmente brancas, cisgêneras e de classe média. Porém, duas coisas devem ser analisadas: o fato de que as mulheres negras (ainda) são “a carne mais barata do mercado”, historicamente forçadas a servir sexualmente seus senhores, e as mulheres trans*, cuja permissividade autorizada pela ciência materializa-se nas perguntas sobre nossos genitais/configuração corporal, perguntas essas vistas como naturais e esperadas.

As mulheres negras continuam a ser vistas como não-pessoas, desumanizadas em função de sua identidade negra, mulheres cujas existências tem a única função de servir sexualmente os homens cis brancos, já que “mulher para casar” só pode ser branca (e cisgênera). Sabemos como a mulher negra é hipersexualizada, vista como mais sexualmente “permissiva”. É isso que autoriza o assédio direcionado a essas mulheres, pois seus corpos não são apenas públicos, são também menos humanos. A autoestima das mulheres negras é uma pauta recorrente na militância feminista negra, especialmente em relação a como muitas mulheres negras são levadas a um consentimento fabricado (não só sexualmente, mas de outras ordens também) para com seus companheiros, com medo de serem trocadas pelas brancas.

Posso dizer que há muitas similaridades em como os corpos trans* são vistos, pela mesma lógica misógina – aqui não atrelada ao racismo, mas sim à transfobia. Nossos corpos, especialmente os das mulheres trans*, são vistos como menos reais e consequentemente menos humanos. Se forem mulheres trans* e negras é ainda pior. A situação é tão crítica que em alguns países estuprar uma mulher trans* não é considerado crime, pois mulheres trans* “não podem ser estupradas”. A invasão psicológica dos nossos corpos autorizada pela ciência, também é uma invasão física: são incontáveis as histórias de assédio, inclusive advindo de homens cis gays. Esses homens tocam (eufemismo para apertam com força) em nossos seios e em nossos genitais como se fosse algo natural. Afinal, nossos corpos estão abertos ao escrutínio público. Somos ainda as cobaias das clínicas – nosso “habitat natural”.

A pergunta que temos que fazer é: o que fazemos quando mulheres trans* são estupradas? Para onde recorremos?

Está na hora de demandarmos respeito e mecanismos de proteção contra o assédio que sofremos. Está na hora de desautorizarmos a ciência e passarmos a ser detentorxs de nossos corpos e identidades.

Está mais do que na hora de enegrecermos nosso feminismo e de levarmos em conta as questões das mulheres trans*.

*Este texto também está disponível no meu site pessoal